Pelas costas

Anabela Fino

No início de 1968, quando nos EUA se sucediam os protestos contra a guerra do Vietname, cresciam as manifestações pacíficas pelos direitos civis e se preparava para a Primavera a marcha dos mais desfavorecidos, sem distinção de cor, sobre Washington, as sondagens revelavam que sete em cada oito norte-americanos negros achavam que a «América estava doente».

Passado meio século, quando um pouco por todo o lado se lembra o assassinato de Martin Luther King em Memphis, a 4 de Abril de 1968, um dos principais protagonistas dos acontecimentos que marcaram esse período, não são precisas sondagens para comprovar que o estado de saúde da sociedade estado-unidense nada deixa a desejar.

Os factos falam por si. A 18 de Março, em Sacramento, Califórnia, Stephon Clark, um jovem negro de 22 anos, foi alvejado com 20 (vinte!) tiros por agentes policiais. As autoridades justificaram tamanha chuva de balas alegando que Clark, que se encontrava no quintal da casa de um familiar, se dirigiu a eles com uma arma na mão. Afinal era um iPhone, como depois se veio a verificar.

Se é no mínimo estranho que agentes da polícia não saibam distinguir um telemóvel de uma arma de fogo, mais estranho ainda é, à falta de melhor designação, que confundam a face de um ser humano com as respectivas costas. É que a autópsia independente realizada na passada sexta-feira por um reputado patologista, Bennet Omalu, revelou que Clark foi atingido por oito balas, seis das quais nas costas e uma no pescoço e que qualquer um destes impactos teria bastado para o matar. Face a esta constatação, como afirmou Omalu, a alegação oficial de que Clark teria ameaçado os polícias, ou seja que estava de frente para eles, é «inconsistente com a evidência forense predominante».

Não sendo credível que a polícia de Sacramento, tratando-se de negros, não distinga entre rosto e costas, há que procurar outra «explicação». O governador Jerry Brown, do partido democrata, classificou de «trágica» a morte de Clark, considerando que o ocorrido «levanta uma série de questões muito sérias», a exigir a supervisão independente da investigação pelo procurador-geral estadual. Bonitas palavras.

Há 50 anos, após o assassinato de Martin Luther King, nunca devidamente esclarecido, os violentos protestos que assolaram mais de uma centena de cidades dos EUA saldaram-se por dezenas de mortos. As autoridades, como o mayor de Chicago, deram ordens claras: «disparar a matar». E agora? Que ordens tem a polícia quando se trata de negros?

A emoção e revolta que assolam Sacramento por mais este crime estão longe de ter a repercussão internacional que seria (?) de se esperar perante tão bárbaro assassinato. Fossem outros os azimutes e o sangue continuaria a escorrer-nos em casa à hora de jantar. Mas é a América, senhores, essa grande democracia... E estes casos com negros? Uma chatice, mas não exageremos.



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