Puigdemont
Carlos Puigdemont, o líder independentista da Catalunha refugiado na Bélgica há cerca de cinco meses, foi preso pela polícia alemã ao atravessar a fronteira entre a Dinamarca e a Alemanha. A polícia secreta espanhola forneceu aos alemães o itinerário e a agenda do líder catalão, enquanto o governo de Mariano Rajoy já produzira o mandato internacional de captura, que permitiu às autoridades germânicas agir, pois claro, «no estrito cumprimento da lei».
As televisões transformaram a notícia em espectáculo, esmiuçaram marginalidades a temperar a história e nunca se esqueceram de referir que o agora aprisionado Puigdemont «incorre numa pena de 30 anos de prisão» por uma enxurrada (também descrita ao pormenor) de malfeitorias antipatrióticas.
O que ninguém diz é que se trata de uma prisão estrita e inteiramente política, sem tergiversações por malabarismos jurídicos que consigam demonstrar outra coisa. O governo de Mariano Rajoy pode carrear uma fileira interminável de acusações lesa-pátria, que a realidade não se altera: Puigdemont é um político envolvido numa luta política, julgado politicamente pelos tribunais de conjuras lesa-pátria e acusado também politicamente por um arremedo de crimes que só existem numa avaliação estritamente política e com uma condenação política da cabeça aos pés, por muito que lhe adornem palavreado patriótico a transmutar não chumbo em ouro, como na alquimia medieval, mas argumentos políticos em crimes de chumbo que, sendo deixados a aboborar no regime democrático, podem um dia escorrer em brasa pela garganta de alguém.
Até aqui, as «autoridades europeias» mantiveram-se aparentemente neutras em relação ao conflito independentista na Catalunha, conhecendo os seus próprios telhados de vidro numa Europa pejada de questões nacionalistas ou conflitos étnicos, a larvar sob um quotidiano normalizado.
O mesmo se tem passado nos países que mandam nas autoridades europeias – ou seja, a Alemanha –, mas o governo conservador, ainda em formação, de Angela Merkel decidiu acudir ao governo conservador e fragilizado de Mariano Rajoy, na sua absurda perseguição política aos dirigentes catalães, onde – há que dizê-lo – tem reabilitado os procedimentos repressivos do fascismo franquista, nomeadamente desenterrando as famigeradas prisões políticas, por muito que o neguem, a pés juntos.
É a esta vergonha do governo espanhol que o governo de Merkel está a dar cobertura. Os tribunais alemães decidirão se extraditam Puidgemont, mas a ajuda a Rajoy está dada.
Salvaguardando as distâncias, recordemos que a Alemanha nazi também «ajudou» Franco em Espanha. E Merkel deve lembrar-se do que avisou outro seu compatriota, Karl Marx: a História repete-se, «a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa».