Puigdemont

Henrique Custósio

Carlos Puig­de­mont, o líder in­de­pen­den­tista da Ca­ta­lunha re­fu­giado na Bél­gica há cerca de cinco meses, foi preso pela po­lícia alemã ao atra­vessar a fron­teira entre a Di­na­marca e a Ale­manha. A po­lícia se­creta es­pa­nhola for­neceu aos ale­mães o iti­ne­rário e a agenda do líder ca­talão, en­quanto o go­verno de Ma­riano Rajoy já pro­du­zira o man­dato in­ter­na­ci­onal de cap­tura, que per­mitiu às au­to­ri­dades ger­mâ­nicas agir, pois claro, «no es­trito cum­pri­mento da lei».

As te­le­vi­sões trans­for­maram a no­tícia em es­pec­tá­culo, es­miu­çaram mar­gi­na­li­dades a tem­perar a his­tória e nunca se es­que­ceram de re­ferir que o agora apri­si­o­nado Puig­de­mont «in­corre numa pena de 30 anos de prisão» por uma en­xur­rada (também des­crita ao por­menor) de mal­fei­to­rias an­ti­pa­trió­ticas.

O que nin­guém diz é que se trata de uma prisão es­trita e in­tei­ra­mente po­lí­tica, sem ter­gi­ver­sa­ções por ma­la­ba­rismos ju­rí­dicos que con­sigam de­mons­trar outra coisa. O go­verno de Ma­riano Rajoy pode car­rear uma fi­leira in­ter­mi­nável de acu­sa­ções lesa-pá­tria, que a re­a­li­dade não se al­tera: Puig­de­mont é um po­lí­tico en­vol­vido numa luta po­lí­tica, jul­gado po­li­ti­ca­mente pelos tri­bu­nais de con­juras lesa-pá­tria e acu­sado também po­li­ti­ca­mente por um ar­re­medo de crimes que só existem numa ava­li­ação es­tri­ta­mente po­lí­tica e com uma con­de­nação po­lí­tica da ca­beça aos pés, por muito que lhe adornem pa­la­vreado pa­trió­tico a trans­mutar não chumbo em ouro, como na al­quimia me­di­eval, mas ar­gu­mentos po­lí­ticos em crimes de chumbo que, sendo dei­xados a abo­borar no re­gime de­mo­crá­tico, podem um dia es­correr em brasa pela gar­ganta de al­guém.

Até aqui, as «au­to­ri­dades eu­ro­peias» man­ti­veram-se apa­ren­te­mente neu­tras em re­lação ao con­flito in­de­pen­den­tista na Ca­ta­lunha, co­nhe­cendo os seus pró­prios te­lhados de vidro numa Eu­ropa pe­jada de ques­tões na­ci­o­na­listas ou con­flitos ét­nicos, a larvar sob um quo­ti­diano nor­ma­li­zado.

O mesmo se tem pas­sado nos países que mandam nas au­to­ri­dades eu­ro­peias – ou seja, a Ale­manha –, mas o go­verno con­ser­vador, ainda em for­mação, de An­gela Merkel de­cidiu acudir ao go­verno con­ser­vador e fra­gi­li­zado de Ma­riano Rajoy, na sua ab­surda per­se­guição po­lí­tica aos di­ri­gentes ca­ta­lães, onde – há que dizê-lo – tem re­a­bi­li­tado os pro­ce­di­mentos re­pres­sivos do fas­cismo fran­quista, no­me­a­da­mente de­sen­ter­rando as fa­mi­ge­radas pri­sões po­lí­ticas, por muito que o ne­guem, a pés juntos.

É a esta ver­gonha do go­verno es­pa­nhol que o go­verno de Merkel está a dar co­ber­tura. Os tri­bu­nais ale­mães de­ci­dirão se ex­tra­ditam Puid­ge­mont, mas a ajuda a Rajoy está dada.

Sal­va­guar­dando as dis­tân­cias, re­cor­demos que a Ale­manha nazi também «ajudou» Franco em Es­panha. E Merkel deve lem­brar-se do que avisou outro seu com­pa­triota, Karl Marx: a His­tória re­pete-se, «a pri­meira vez como tra­gédia, a se­gunda como farsa».

 



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