007 – Ordem para expulsar
Como é sabido dos livros e dos filmes, das séries de televisão e da putativa aproximação à vida real feita pelos media tudo o que envolve espiões é matéria escaldante, tóxica e amiúde mal cheirosa, no que parece ser a melhor forma de convencer o comum dos mortais de que neste jogo os «outros» são sempre
os maus e vilões, por evidente oposição aos bons, os «nossos», pouco importando que todos troquem mais depressa de lugar do que da camisa. Vem isto a propósito do alegado envenenamento do ex-espião russo Serguei Skripal e da filha com um gás neurotóxico em Salisbury, no Sul de Inglaterra, a 4 de Março.
O caso tem feito correr rios de tinta e motivou nos últimos dias o que o ministro dos Negócios Estrangeiros britânico, Boris Johson, classificou de «resposta extraordinária» dos aliados do Reino Unido, referindo-se à «maior expulsão colectiva de agentes dos serviços de informações russos de sempre».
A coisa, segundo Johson, «vai contribuir para defender a nossa segurança comum». Que bom. Ficamos todos mais descansados só de saber que, numa espécie de «brexit diplomático» ao contrário, mais de uma centena de «agentes russos» colocados em embaixadas em países ocidentais vão ser recambiados para Moscovo.
Dando apenas como adquirido que nestas histórias de espiões sobejam cascas de banana, e tendo em conta que nos EUA a justificação para a ordem de saída foi o número «inaceitavelmente alto» de agentes russos no país, enquanto na Alemanha foi o facto de a «Rússia não ter contribuído para esclarecer o envenenamento de Salisbury», ocorre fazer uma pergunta parva: então não é quem acusa que deve provar a acusação? Mesmo sabendo o que valem as «provas», como se provou no Iraque, não seria de esperar algum decoro? Talvez não.