Desastre completo
Intervindo numa conferência na Faculdade de Economia de Coimbra, Passos Coelho usou uma linguagem desbragada e, procurando atingir em particular o PCP, bolsou mais uma vez a sua arrogância revanchista: «rosnam mas não mordem».
E acrescentou: «vão dizendo que o Governo não devia ceder tanto à União Europeia, à Comissão Europeia, devia gastar mais, a obsessão pela redução do défice não devia ser tanta, a redução da dívida não devia ser tanta, que até se devia reestruturar a dívida, sendo que uma parte dela está cá dentro, reestruturá-la era não pagar, era deixar falir os bancos, a Segurança Social e por aí fora, seria o desastre completo».
Sendo certo que as posições do PCP procuram ser coerentes com a defesa dos interesses dos trabalhadores, do povo e do País, percebe-se que, ao contrário do que afirma, o que incomoda Passos Coelho é que o PCP seja contra a prática reiterada do PS, PSD e CDS de cedência e submissão às imposições, chantagens e pressões da UE e dos seus órgãos; é que o PCP combata a obsessão pelo défice orçamental e defenda que o que é prioritário e urgente é o combate ao défice produtivo; é que o PCP insista na necessidade de renegociar uma dívida, na prática impagável, provocada por mais de quatro décadas de política de direita; é que o PCP lute pelo controlo público da banca e dos sectores estratégicos, que uma criminosa política de privatizações do PS, PSD e CDS levou a cabo (e de que o governo de Passos Coelho foi triste campeão). É este e não outro o desastre completo que o PCP, os trabalhadores e o povo a todo o custo procuram evitar.
O que preocupa Passos Coelho é que o PCP afronte com firmeza os desígnios do grande capital. Esse sim, como um bulldog agressivo e raivoso, quando «morde», se não encontrasse pela frente a luta organizada que travamos, não largaria mais a vítima até conseguir, por asfixia, liquidá-la. Este sim, seria um desastre completo, por mais que alguns expoentes da direita «rosnem» o contrário.