4 a 0
«Não podemos querer ter uma economia 4.0 com sistemas políticos 2.0 ou 3.0», afirmou o Presidente da República no Encontro da COTEC Europa realizado em Mafra, no encerramento de um debate sobre as implicações da chamada quarta revolução industrial no mundo do trabalho. «Estamos a conceber novas economias com base em sistemas políticos ultrapassados», disse.
A discussão sobre o impacto dos avanços tecnológicos e científicos na produção, na indústria, nas relações laborais, na organização da sociedade, não é nova. Tem a idade daquilo que foi sendo considerado avanço tecnológico em determinado momento da História, mesmo que hoje já pareça obsoleto. Quem vive da exploração do trabalho alheio procura que os avanços tecnológicos acelerem, refinem e aprofundem a exploração. Quem vive do seu trabalho, quer que os avanços tecnológicos tragam tarefas menos penosas, menos tempo de trabalho, mais desenvolvimento. É uma equação simples e faz parte da luta de classes.
O que o Presidente da República disse foi apenas a versão afectuosa de uma tese velha e bafienta: a de que o desenvolvimento tecnológico é incompatível com trabalhadores com direitos. Mais: Marcelo aponta o alvo ao próprio regime democrático, que pelos vistos está «ultrapassado» pelas «novas economias». É um truque batido, que é o de chamar velho ao que é novo, e vice-versa. Não há nada de «moderno» em ameaçar milhões de trabalhadores de desemprego, em pôr os humanos ao ritmo na máquina, ou em pôr os interesses económicos a determinar as opções políticas. Moderno é pôr a ciência e a técnica ao serviço do desenvolvimento e da emancipação da humanidade. Ponto final.
Para muitos dos que falam com desvelo da modernidade do 4.0, o resumo pode ser outro: da riqueza produzida, que fique 4 para o grande capital e 0 para os trabalhadores. Com as qualidades oratórias que todos lhe reconhecem, o Presidente da República clarificou mais uma vez de que lado está.