«Portugal precisa de pôr em marcha outra política», afirmou-se em Coimbra
COIMBRA Tem valido a pena lutar pela melhoria das condições de vida dos portugueses, afirmou Jerónimo de Sousa no sábado, 3, reiterando que os problemas que persistem confirmam a necessidade da política alternativa.
Há muito trabalho a fazer e muito combate a travar!
A moldura humana que encheu por completo o pavilhão da Juventude Desportiva e Recreativa de Arzila, em Coimbra, ajudou a aquecer uma noite fria pontuada pela chuva. O jantar confeccionado com brio por militantes comunistas foi o suplemento de conforto que abriu o apetite para os discursos.
Numa freguesia em que o PCP e os seus aliados eleitorais reforçaram posições nas últimas autárquicas, conquistando a maioria absoluta nos órgãos do poder local de Taveiro, Amial e Arzila, o Secretário-geral do PCP, sem esquecer aquela e até tomando-a como exemplo, sublinhou porém outras conquistas, designadamente as «medidas marcantes» alcançadas com a contribuição decisiva do Partido e com a luta dos trabalhadores e do povo. Estas traduzem-se numa «real melhoria das condições de vida para milhões de portugueses», juntando-se a «várias outras propostas inscritas e aprovadas que vão dar resposta a problemas dos trabalhadores, dos reformados, dos jovens e de outras camadas da população».
Tem por isso valido a pena este combate «pela defesa, reposição e conquista de rendimentos e direitos», considerou Jerónimo de Sousa, que lamentando terem ficado «de fora muitas propostas necessárias e possíveis de concretizar», resultado da «opção do PS de não enfrentar as imposições da União Europeia nem romper com os interesses do grande capital», não deixou de frisar que, «apesar das contradições e insuficiências, há uma coisa que resulta clara: os avanços alcançados nesta nova fase da vida nacional, neste e nos orçamentos anteriores, são avanços que um governo do PS, noutras circunstâncias, não adoptaria como nunca antes adoptou».
Dito de outro modo, «ter consciência disto é compreender que para se ir mais longe neste caminho de reposição de direitos e elevação das condições de vida do povo, é preciso dar mais força ao PCP!». «E “outro galo cantaria” no que diz respeito ao crescimento, ao emprego, ao desenvolvimento do País se não pesasse como pesa o actual quadro de constrangimentos e condicionamentos externos», se «não permanecessem enormes resistências por parte do PS na política de restituição de direitos e rendimentos que estão adiados e que urgia concretizar para se ir ainda mais longe na reposição da justiça social e na dinamização da economia», insistiu.
Linha definidora
Ora, prosseguiu Jerónimo de Sousa no jantar-comício realizado sábado, 3, «se há elementos positivos registados na evolução da situação económica do País, graças ao impacto da reposição de rendimentos e de uma conjuntura externa favorável, eles estão longe de ser a resposta cabal e necessária para ultrapassar os problemas de fundo do País – problemas que são estruturais e que exigem medidas estruturais». A advertência foi feita para introduzir outro elemento que importa ter presente: não é possível «desenvolvimento sustentado do País mantendo o essencial da política que o conduziu ao atraso».
Por isso, o Secretário-geral do Partido defendeu que «Portugal precisa de pôr em marcha outra política» e detalhou os objectivos que para o PCP sustentam essa mesma política como patriótica e de esquerda, particularizando, depois, que a valorização do trabalho e dos trabalhadores é claramente uma linha definidora.
Socorrendo-se do exemplo do chumbo por PS, PSD e CDS, no dia anterior (sexta-feira, 2), na Assembleia da República, da proposta da bancada comunista para a reposição do pagamento do trabalho extraordinário e do trabalho em dia feriado», Jerónimo de Sousa criticou o facto de se ter imposto, «mais uma vez, a velha política de sucessivos governos em relação às leis laborais». Adiantou, contudo, que aquela «iniciativa legislativa faz parte de um conjunto de propostas que o PCP apresentou na AR visando garantir uma legislação de trabalho que retome a sua natureza de protecção da parte mais débil – a única que é compatível com uma perspectiva progressista e com o desenvolvimento económico e social, com o projecto que a própria Constituição da República comporta».
A defesa, reposição e conquista de direitos sociais e laborais, de rendimentos e dos serviços públicos, a ruptura com a política de direita e a conquista de uma política alternativa reclamam a intensificação da luta dos trabalhadores e do povo, o aumento da influência política e eleitoral do PCP e a convergência dos democratas e patriotas, e, para tal, «há muito trabalho a fazer», concluiu Jerónimo de Sousa.
Ligados à vida
Antes de intervir o Secretário-geral do PCP, tomaram a palavra Ana Ramôa, da Juventude Comunista Portuguesa, e Vladimiro Vale, da Comissão Política do Comité Central do PCP e responsável pela Organização Regional de Coimbra (ORC). Este último chamou a atenção para a realização, este ano, da 9.ª Assembleia da ORC e para os seus objectivos, e fez uma elucidativa síntese da intervenção do PCP no distrito, acção multifacetada, qualificada, persistente e que mantém a organização ligada à vida e à luta.
Exemplo disso foi referido por Vladimiro Vale quanto à atenção dada ao mundo rural assolado pelos incêndios do ano passado. Jerónimo de Sousa também não se esqueceu das tragédias na região centro e, «saudando as delegações de agricultores e produtores florestais lesados pelos incêndios» que na véspera se concentraram em Lisboa frente ao Ministério da Agricultura, reclamou mais e melhores apoios e medidas, incluindo a correcção da acção destruidora provocada por sucessivos governos e em particular pelo anterior executivo PSD/CDS.
Isto porque, «sem uma política de apoio à pequena e média agricultura, à agricultura familiar, à produção e ao seu escoamento a preços justos, ao mundo rural, à fixação de pessoas, designadamente com o desenvolvimento de serviços públicos, manteremos as condições para, mais cedo que tarde, termos novas tragédias», alertou.