Ingerência mascarada
Segundo a Lusa, a agência de notação financeira Moody’s terá alertado na passada segunda-feira que «o envelhecimento da população e a pressão que exerce sobre as contas públicas, nomeadamente sobre a saúde, traz desafios que podem prejudicar a avaliação do “rating” de Portugal».
«A forma como os governos adaptam os seus sistemas de cuidados com a Saúde ao envelhecimento da população vai tornar-se cada vez mais importante para a nossa avaliação orçamental e, em última análise, para a análise das dívidas públicas», avisa a analista da Moody's, Kathrin Muehlbronner, em comunicado.
Ameaça a Moody’s que, quanto mais envelhecida estiver a população, pior a classificação. A não ser que se adaptem os sistemas de Saúde e de Segurança Social.
Fica subentendido o que se entende pela adaptação recomendada pela Moody’s (as receitas são sobejamente conhecidas): que se acabe com as funções sociais do Estado (o velho jargão da política de direita: «menos Estado, melhor Estado») e se abra totalmente estas áreas ao negócio dos privados.
Há, no entanto, uma contradição insanável neste apelo, que põe a nu a verdadeira intenção de quem o faz: com menos direitos, mais exploração e pior qualidade de vida, a população não aumenta, diminui; não rejuvenesce, continua inevitavelmente a envelhecer.
Seguindo a lógica linear da receita que a Moody’s preconiza, só poderíamos esperar uma espiral regressiva que, em última análise, conduziria à perda da soberania e independência, ou seja, ao completo declínio do País. E, aí chegados, obteríamos certamente uma generosa avaliação da Moody’s no nível máximo da sua escala de “rating”.
Não admira que a Moody’s faça apelos deste tipo. Foi para isto que a criou o grande capital.
Mas avalia mal o povo português. Senão saberia que, até no Carnaval, este povo «leva a mal» a ingerência, mesmo quando esta se apresenta mascarada.