Provas de vida
O PSD fez prova de vida com os dois líderes do seu actual estado – o de líder que vai e líder que vem –, produzindo ambos substantivos responsos.
Passos Coelho, o líder que vai, chegou-se ao proscénio e acusou o Governo de «fugir como o diabo da cruz» de várias coisas (o diabo está-lhe mesmo aparafusado na cabeça), nomeadamente dos casos judiciais que por aí andam e perante os quais, segundo ele, o Governo «nada faz», preferindo esconder-se atrás do «curso da Justiça».
Só mesmo um homem que governou o País afrontando regularmente a Constituição poderia afirmar esta atoarda de o Governo «nada fazer» em relação a casos judiciais – e está tudo dito.
Rui Rio, o líder que vem, decidiu responsabilizar o Governo por «nada fazer» para convencer a Google a instalar no Porto o «centro de excelência» que diz pretender construir em Oeiras.
Se Passos Coelho tem a mania do diabo, pelos vistos Rui Rio tem a mania do Porto, obsessão de que a bela e invicta cidade obviamente não tem culpa. Quanto ao PSD, só lhe faltava um líder afoitamente regionalista, que vê o País a partir da sua região e, porventura, instituirá o turismo de habitação como a trave-mestra do desenvolvimento do interior.
Já o PS não precisa de «prova de vida» porque é poder, mas fê-la do ponto de vista ideológico ao votar com o PSD e o CDS o chumbo da reposição dos valores de pagamento do trabalho suplementar e do tempo de descanso compensatório, proposto pelo PCP, BE e PAN.
Recorde-se que o corte destes pagamentos foi executado pela chancelaria de PSD/CDS, de enxurrada com os cortes de salários e pensões de trabalhadores e de reformados, coisa de que olimpicamente se esquecem hoje, chegando ao desplante de exigirem agora o que destruíram ontem.
Esta votação do PS, ao lado da direita e pela manutenção de um corte indigno no pagamento de trabalho suplementar e de descanso compensatório – imposto pela mesma direita, numa governação ultrajante para o regime democrático –, configura uma inequívoca tomada de posição política favorável aos desígnios da mesma direita, nomeadamente no corte de direitos às massas trabalhadoras que é, como se sabe, o desígnio permanente desta gente.
Não terá sido por acaso que o primeiro-ministro, António Costa, veio logo a público garantir que estava muito bem com os aliados que tem à esquerda, respondendo assim à ofensiva jornalística que o confrontava com a votação do PS ao lado da direita e assumindo o seu campo político de esquerda.
Todavia, como advertiu Jerónimo de Sousa, «os direitos dos trabalhadores são zona de fronteira entre a esquerda e a direita».
Como quer António Costa e o seu PS reivindicarem-se de esquerda, quando alinham com a direita na manutenção da ofensiva contra os interesses dos trabalhadores?