Ricos e pobres

Jorge Cadima

De forma nada inocente, confessa que o capitalismo não é reformável

O Índice de Bilionários da Bloomberg revela que os 500 indivíduos mais ricos do planeta chegaram ao fim de 2017 com fortunas superiores em 24% ao que detinham no início do ano. Esta percentagem é idêntica ao aumento em 2017 do índice Dow Jones da Bolsa de Nova Iorque, que desde a eleição de Trump já bateu por 87 vezes o seu próprio recorde (thebalance.com, 28.12.17). O novo máximo histórico de fim de ano foi ajudado pela nova lei fiscal de Trump, que ofereceu como enorme prenda de Natal às grandes empresas uma baixa da sua taxa de impostos, de 35% para 21% (thebalance.com, 27.12.17). Mas a mesma fonte informa que «as grandes empresas não pagam na realidade a taxa máxima de imposto federal [sendo] a taxa real de cerca de 18%» e não 35%. Segundo o professor norte-americano James Petras, «entre 67% e 72% das grandes empresas tiveram uma taxa fiscal nula, após as deduções e isenções... enquanto os seus operários e empregados pagavam cerca de 25% a 30% em impostos. [...] A taxa para a minoria das grandes empresas que pagaram algum imposto, foi de 14%» (globalresearch.ca, 5.10.17). Ao mesmo tempo, «as maiores empresas dos EUA estacionaram mais de 2,5 biliões de dólares em paraísos fiscais [...] e receberam 14,4 biliões em ajudas com dinheiro do Estado». Comenta Petras: «a classe dominante aperfeiçoou a ‘tecnologia’ de explorar o Estado» e não apenas os trabalhadores.

A natureza cada vez mais exploradora e parasitária do capitalismo actual merece reparo de Martin Wolf, economista chefe no Financial Times (20.12.17). Referindo números de desigualdades crescentes, escreve que esta tendência é má «não apenas para a paz social, mas até para a sobrevivência das democracias estáveis» dos países mais ricos. Escreve Wolf: «O poder cria riqueza e a riqueza cria poder». Perguntando se algo pode inverter o processo de crescente desigualdade diz: «sim [...], os quatro cavaleiros da catástrofe: a guerra, a revolução, as epidemias e a fome». De forma nada inocente, confessa que o capitalismo não é reformável. E repete: «no século XX, revoluções (na União Soviética e China, por exemplo) e duas guerras mundiais reduziram dramaticamente as desigualdades. Mas quando os regimes revolucionários amoleceram (ou colapsaram) ou as exigências da guerra se afastaram nas memórias [...] novas elites imensamente ricas emergiram, alcançaram o poder político e de novo o usaram para os seus fins».

A amálgama é venenosa. Não foram as guerras mundiais que ‘reduziram dramaticamente as desigualdades’, mas o facto de que essas guerras, geradas pelo capitalismo, conduziram às grandes revoluções sociais do século XX. E as vitórias contra-revolucionárias que de novo aumentaram dramaticamente as desigualdades foram efusivamente saudadas e promovidas por Wolf e os seus correligionários, que com elas lucraram. Agora Wolf quer deixar-nos a opção entre aceitar a pilhagem ou perecer num holocausto: «A implicação parece ser que, na ausência de algum acontecimento catastrófico, estamos de regresso às desigualdades sempre crescentes. A guerra termo-nuclear seria igualizadora. Mas a catástrofe não é uma [opção] política».

Separando o trigo do joio confusionista, o artigo de Wolf revela a verdade. Longe de ser uma ‘catástrofe’, a revolução é a única solução para quebrar a espiral de exploração e pilhagem sem fim dos povos. O capitalismo apenas traz a miséria e a guerra. Não é reformável.




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