Níger: manifestações, «democracia» e bases

Carlos Lopes Pereira

Vários milhares de pessoas manifestaram-se em Niamey, no último dia de 2017, contra o próximo Orçamento do Estado, considerado «anti-social».

Em resposta ao apelo de partidos da oposição, manifestantes desfilaram na capital e fizeram um comício defronte da sede do Parlamento. «Saímos à rua para expressar o nosso descontentamento» e «denunciar o Orçamento de 2018, que implica maiores dificuldades para os nigerinos», afirmou Soumama Sanda, um dos responsáveis da Frente pela Restauração da Democracia e Defesa da República, a principal coligação da oposição. Insurgiu-se ainda, segundo a AFP, contra «o guarda-chuva de impunidade» de que gozam os «próximos do regime», ao contrário dos oposicionistas, para quem estão reservadas «a prisão e a bastonada».

Se a lei for para diante, acham os manifestantes, os preços subirão e as famílias de menores recursos sofrerão as consequências. Já o ministro das Finanças, Hassoumi Massouodu, entende que as medidas previstas «não atingem os pobres» mas antes «os mais ricos».

Outra manifestação contra o Orçamento, em finais de Outubro, originou confrontos com a polícia, de que resultaram uma vintena de feridos. A 23 de Dezembro, as autoridades proibiram, «por razões de segurança», novo protesto convocado por organizações sociais.

Nesse mesmo dia, chegou a Niamey o presidente Emmanuel Macron, para celebrar o Natal com as tropas francesas que operam no Níger e em outros países do Sahel.

Macron e o seu homólogo nigerino, Mahamadou Issoufou, proferiram declarações sobre a situação política no país africano e consideraram que a «consolidação da democracia» é uma das prioridades do Níger, que já assistiu a vários golpes de Estado.

Para Issoufou, eleito em 2011 e reeleito em 2016 – num escrutínio criticado pela oposição, que acusa o regime de «corrupção» –, o Níger precisa de «instituições democráticas fortes, capazes de garantir a liberdade ao cidadão e de promover o Estado de direito e a justiça». Por isso, as eleições presidenciais de 2021, às quais ele não poderá concorrer, devem ser «transparentes e honestas».

Desde a independência do país, em 1960, nunca houve uma transição democrática entre dois presidentes eleitos. Macron apontou esse objectivo para 2021, prometeu apoiar o Níger no processo eleitoral e, para uma boa governança, apontou três «pilares» indissociáveis: «segurança, democracia e desenvolvimento».

Ponto principal da sua visita, Macron deslocou-se à base militar francesa, no aeroporto de Niamey. Autêntico «pólo aéreo» da operação Barkhane, a base alberga 500 militares, caças Mirage 2000, aviões de transporte e drones. Por ela transita a maior parte dos 4000 soldados franceses que intervêm em cinco países sahelianos (Mali, Níger, Chade, Burkina Faso e Mauritânia). De acordo com a Jeune Afrique, Macron participou de um jantar natalício com 700 convivas, a maioria soldados franceses, mas incluindo nigerinos e 40 «especialistas» alemães que partilham o espaço.

No Níger, os Estados Unidos utilizam também esta base militar de Niamey, estão a instalar outra (em Agadez) e a Alemanha quer construir uma. Tudo em defesa da «democracia»…




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