Seriedades
Num trabalho de Luciano Alvarez no Público, intitulado «A unidade militar de emergência que PSD e CDS pedem já existe» conta-se uma história que começa por ser ridícula, para não variar.
O País precisa de «uma unidade militar de resposta a emergências e, nomeadamente, a este tipo de emergências», perorou Passos Coelho a 20 de Outubro, de olhos postos no exemplo espanhol que criou em 2005 a UME, uma unidade militar com o objectivo de ajudar as populações em situações graves ou catastróficas, como os incêndios. Aliás, entre Junho e Agosto deste ano mais de 500 homens e respectivo equipamento da UME estiveram em Portugal, a auxiliar no combate aos incêndios.
Pouco depois, a 26 de Outubro, Assunção Cristas apresentou de rajada 43 medidas para mostrar que o CDS estava na vanguarda do combate aos incêndios e, entre elas, brilhava «a forma de participação das Forças Armadas nas missões de protecção civil, com a criação de uma unidade especial formada e equipada para o efeito».
Acontece que essa «unidade especial» já existe, chama-se Regimento de Apoio Militar de Emergência (RAME), foi anunciado em 2014 em pleno governo PSD/CDS e está operacional desde Setembro do ano passado.
Há duas falhas convergindo numa só, neste deslize dos partidos do PaF.
A primeira, é que o seu desinteresse era tão efectivo, em relação ao problema dos incêndios, que esqueceram de imediato a criação que decidiram de uma unidade militar para o combate a este flagelo; a segunda, é que o seu desinteresse em relação aos incêndios continua tão real e desinformado que propõem a criação de uma unidade militar que eles próprios já haviam criado e esquecido, enquanto governantes.
Mas há factos sérios, fora deste entremez.
O relatório independente sobre os incêndios de Pedrógão refere a intervenção do RAME e recorda: «o RAME, criado no âmbito da reforma Defesa 2020, materializou-se, porém, numa versão minimalista da intenção inicial, pois acabou por não se constituir como una unidade militar com capacidades, meios e processos dos diferentes ramos das Forças Armadas».
Não foi o que testemunhou e disse o ministro da Defesa, Azeredo Lopes, quando, a 20 de Abril passado, visitou o RAME, cinco meses depois de estar operacional nas instalações do quartel de Abrantes. Caracterizou o RAME como sendo de «excelência», realçou a capacidade do Exército «para enfrentar situações de emergência» e concluiu que o mesmo Exército estava mais bem preparado «no âmbito da formação, do treino e na aquisição de equipamentos».
O relatório independente não tergiversa nas acusações que faz ao RAME e realça, nomeadamente, a «versão minimalista» com que foi implantado, o que responsabiliza o governo do PS. E isso é também um facto sério.