«Folies Bergères»
Acentuadamente, a generalidade campanhas eleitorais autárquicas afunilam numa espécie de A Campanha Alegre. A colheita divide-se em dois grupos, a que podemos chamar as «Folies» e as «Bergèrers» – sem desprezo pelas «loucuras» nem pelas «pastoras» nem pelo famoso cabaré parisiense Folies Bergères, que é também uma palhaçada, mas onde se paga bilhete a troco de um bom espectáculo.
Começando pelas «Folies», estão nelas uma chusma de comediantes de paróquia que fazem rimas nos cartazes eleitorais, utilizam cantorias a divulgar o próprio nome, fazem promessas de ladeira acima como se fossem brejeirices e utilizam quaisquer estultícias que lhes pareçam geradoras de votos.
São os «tonhos» desta refrega eleitoral, que alegremente a transformam em feira e a apresentam em circo, vindo geralmente daí insignificantes mobilizações electivas.
As «bergères» fiam mais fino, por assim dizer, pois procuram pastorear as massas como rebanhos a quem passam a mão pelo pêlo, muito próximos e simpáticos, empenhados e com sorrisos de betão, sempre promitentes e nunca zangados, proliferando por cada terreola discursos ao País e raramente sobre os locais de onde os debitam, apontando uma concentração de malfeitorias aos adversários, que descrevem como um vácuo sufocante onde nada mexe ou, sequer, respira.
Assunção Cristas, que decidiu jogar nestas eleições, com a candidatura por Lisboa, a sua posição no CDS, na direita, na relação de muleta com o PSD e, por fim, na autarquia de Lisboa – com que tem pouco a ver –, anda muito dinâmica a dar papéis a automobilistas e a andar de bicicleta para «combater» o «Governo das esquerdas unidas» (o slogan é capaz de ainda lhe sair pela culatra), enquanto vai exigindo diariamente a demissão de ministros e bajula a cidade de Lisboa, sobre a qual debita contra o trânsito e diz coisas sobre a habitação, sem referir o que fez contra ela enquanto governante. Anote-se-lhe a vivacidade de varina universitária, figura que, não existindo, só pode tornar-se mítica, o que lhe fica wagneriamente a matar, evidentemente.
Quem definitivamente não acerta o passo é o «berger» Passos Coelho, problema que arrasta desde que foi apeado do poder.
Em voz de cantor lírico e sempre apartando o discurso às talhadas, o homem investe furiosamente contra «a geringonça», epíteto onde congelou a actual solução governativa e que brande com desesperado acinte. Quanto ao cardápio de insultos, é em função dos assuntos do dia.
E vai regularmente metendo argoladas, como no passado fim-se-semana de novo o fez, citando um comunicado saído no Expresso sobre Tancos e que mais ninguém conhece, à semelhança dos suicídios de Pedrógão.
Discursando sempre em palanques autárquicos, o homem nem repara que nunca fala dos assuntos de uma autarquia que seja...