É uma mina

Henrique Custódio

Navegar à bolina é ciência de marear que o ex-Governo do PAF nunca soube nem quis experimentar, pois o seu empenho governativo afunilou-se afincadamente na arte do naufrágio.

Agora (e de há quase dois anos para cá), desapossados do poder, boiam ao sabor das ondas e das correntes, cavalgam a espuma dos dias para arranjar assunto, vagueiam, à deriva, pelo País aproveitando apresentações de candidaturas às eleições autárquicas para se erguerem à uma, nos palanques, a malhar no Governo (como diria o Eça).

A Passos Coelho, não chegou a argolada dos suicídios que decretou no calor da tragédia de Pedrógão Grande: continuou por aí fora, quase diariamente, a proferir desavisadas alocuções que já o colocam numa bolha onde espadana, à vista de todos, num mundo que é lá só dele.

Utiliza as mãos a preceito, apartando com elas o discurso em talhadas que dispõe, no ar, em meticuloso emparelhamento. Mas o pior nem é esta encenação demiúrgica, é o catastrófico improviso de Passos Coelho que este insiste em utilizar, mau grado as denúncias unânimes que lhe chovem de todo o lado, advertindo-o de que em cada improviso há grande hipótese de sair asneira.

Depois de anunciar suicídios que não ocorreram, semear montes de «inércias», «incompetências», «insensibilidades», «escândalos», «irresponsabilidades» e o diabo a sete por tudo o que são zonas governamentais, Passos Coelho mostra-se agora escandalizado com o «indecoroso» «passeio de ministros» por Pedrógão Grande que, «à vez», se mostram às televisões «com a desgraça» em fundo, sem se dar conta de que está a criticar o excesso de presenças governamentais em Pedrógão Grande quando, há duas ou três semanas, acusava o Governo exactamente do contrário, da «ausência» dos «responsáveis» nos «locais da tragédia»...

Assunção Cristas, por seu lado, assumiu em definitivo o papel de Maria da Fonte da Linha de Cascais, desenrolando insultos avulsos e desafios convulsos a tudo o que mexe no Governo. O seu último pregão interpelava o primeiro-ministro - se ele considerava «um imprevisto» «distribuir» pelas populações afectadas os «treze milhões e 400 mil euros» da generosidade nacional - exigindo-lhe, pelos vistos, que enfiasse o dinheiro em sacos e pessoalmente o fosse distribuir às famílias afectadas pelos incêndios. Parece o milagre das rosas transposto da Rainha Isabel para Pedrógão Grande e seria apenas estapafúrdio, se não fosse um lamentável exercício de demagogia manhosa.

Agora que entra a silly season, Passos e Cristas parecem ter encontrado um assunto inesgotável nas suas investidas antigovernamentais: a reconstrução dos haveres destruídos no incêndio de Pedrógão.

Como se vai necessariamente estender no tempo, a reconstrução em Pedrógão é uma mina de mal-dizer para estes garbosos opositores.

 



Mais artigos de: Opinião

Não decidir, decidindo...

A Altice saltou novamente para as primeiras página dos jornais. Ao mesmo tempo que está em marcha um violentíssimo ataque a milhares de trabalhadores da PT, que detém, a multinacional francesa prepara a aquisição de um importante grupo económico de comunicação social, a Mediacapital, detentora da TVI, a principal estação de televisão privada.

Venezuela e Democracia

Os órgãos de comunicação social portugueses continuam, na sua esmagadora maioria e com honrosas excepções como a do «Avante!», empenhados na tarefa que lhes foi atribuída pelo dono: não ter limites na manipulação, distorção...

Altice, o escândalo monopolista

Está decidida, por 440 milhões, a operação da Altice - multinacional vinda de França, USA, Israel -, que já controla a Portugal Telecom, TDT (Televisão Digital Terrestre), MEO e SAPO, de compra à PRISA - multinacional de Espanha, USA, Colômbia - da Media...

O PCP não é editável

A notícia é na televisão, o assunto a luta na PT, a imagem é de um plenário de trabalhadores em Coimbra. Ao fundo ouve-se uma voz anónima, que transmite solidariedade e confiança. É de um dirigente do PCP. A notícia ignora-o e prefere destacar a...

Venezuela

O importante processo de afirmação soberana e de transformações democráticas e progressistas na Venezuela, iniciado com a eleição do Presidente Hugo Chávez em 1998, não teve um momento de trégua. Ultrapassada a surpresa inicial, os EUA, que saqueavam...