É uma mina
Navegar à bolina é ciência de marear que o ex-Governo do PAF nunca soube nem quis experimentar, pois o seu empenho governativo afunilou-se afincadamente na arte do naufrágio.
Agora (e de há quase dois anos para cá), desapossados do poder, boiam ao sabor das ondas e das correntes, cavalgam a espuma dos dias para arranjar assunto, vagueiam, à deriva, pelo País aproveitando apresentações de candidaturas às eleições autárquicas para se erguerem à uma, nos palanques, a malhar no Governo (como diria o Eça).
A Passos Coelho, não chegou a argolada dos suicídios que decretou no calor da tragédia de Pedrógão Grande: continuou por aí fora, quase diariamente, a proferir desavisadas alocuções que já o colocam numa bolha onde espadana, à vista de todos, num mundo que é lá só dele.
Utiliza as mãos a preceito, apartando com elas o discurso em talhadas que dispõe, no ar, em meticuloso emparelhamento. Mas o pior nem é esta encenação demiúrgica, é o catastrófico improviso de Passos Coelho que este insiste em utilizar, mau grado as denúncias unânimes que lhe chovem de todo o lado, advertindo-o de que em cada improviso há grande hipótese de sair asneira.
Depois de anunciar suicídios que não ocorreram, semear montes de «inércias», «incompetências», «insensibilidades», «escândalos», «irresponsabilidades» e o diabo a sete por tudo o que são zonas governamentais, Passos Coelho mostra-se agora escandalizado com o «indecoroso» «passeio de ministros» por Pedrógão Grande que, «à vez», se mostram às televisões «com a desgraça» em fundo, sem se dar conta de que está a criticar o excesso de presenças governamentais em Pedrógão Grande quando, há duas ou três semanas, acusava o Governo exactamente do contrário, da «ausência» dos «responsáveis» nos «locais da tragédia»...
Assunção Cristas, por seu lado, assumiu em definitivo o papel de Maria da Fonte da Linha de Cascais, desenrolando insultos avulsos e desafios convulsos a tudo o que mexe no Governo. O seu último pregão interpelava o primeiro-ministro - se ele considerava «um imprevisto» «distribuir» pelas populações afectadas os «treze milhões e 400 mil euros» da generosidade nacional - exigindo-lhe, pelos vistos, que enfiasse o dinheiro em sacos e pessoalmente o fosse distribuir às famílias afectadas pelos incêndios. Parece o milagre das rosas transposto da Rainha Isabel para Pedrógão Grande e seria apenas estapafúrdio, se não fosse um lamentável exercício de demagogia manhosa.
Agora que entra a silly season, Passos e Cristas parecem ter encontrado um assunto inesgotável nas suas investidas antigovernamentais: a reconstrução dos haveres destruídos no incêndio de Pedrógão.
Como se vai necessariamente estender no tempo, a reconstrução em Pedrógão é uma mina de mal-dizer para estes garbosos opositores.