Montagens
Um dos três canais generalistas tem vindo a repetir uma fórmula, nos seus noticiários, que, parecendo inovadora, nada tem de novo. Recorrendo a declarações de dirigentes partidários, nomeadamente do PCP, coloca-as na mesma peça como se de um diálogo se tratasse, simulando um pingue-pongue que não existiu.
O cúmulo do truque chegou no dia 18, no jornal das 20 horas (repetido no dia seguinte, às 13 horas, e ampliado no seu canal de notícias), com uma peça que começa e termina com a sugestão de ruído em torno de um Orçamento que não existe – nem existirá até meados de Outubro, quando entrar no Parlamento. Mas o que vem pelo meio é tudo menos inocente. Aproveitando a casualidade de ter declarações de dois dirigentes partidários (um deles do PCP, João Oliveira) no mesmo estúdio, as imagens são colocadas lado a lado como se de um debate se tratasse – ainda que as entrevistas tenham ocorrido em dias diversos.
Depois, foi só escolher criteriosamente as passagens e o tempo de entrada (com João Oliveira a surgir sempre em resposta) e assim procurar transformar a afirmação das posições do PCP numa réplica a outros. A imagem do (falso) interlocutor é mantida congelada em metade da imagem para garantir o efeito.
O tema era as alterações aos escalões do IRS, no sentido de introduzir uma maior progressividade neste imposto, mas podia ser qualquer outro que permitisse criar o tal ruído que é anunciado pelos que, na verdade, o fabricam. Um ruído cujo único objectivo, pelo exemplar em análise, parece ser a subalternização de posições de há muito assumidas pelo PCP como uma resposta à iniciativa de outrem.
«Operação autárquicas»
Os que acompanham diariamente o noticiário da noite desse canal terão reparado que, no seu comentário dominical, Luís Marques Mendes inaugurou o novo espaço «operação autárquicas», onde promete abordar as disputas «mais atractivas».
A abrir, Mendes escolheu Lisboa e Matosinhos. No primeiro caso, o acto eleitoral é reduzido a duas ligas: dando por certa a vitória do actual presidente, diz que falta saber se é por maioria absoluta ou relativa; depois, anunciando uma luta pelo segundo lugar entre as candidatas do PSD e do CDS-PP. Acreditando na preparação cuidada do seu comentário, só se pode concluir pela má fé ao excluir a candidatura da CDU da enunciação de nomes – que, aliás, tem maior representação na vereação do que o CDS-PP.
Em Matosinhos, são nomeados os candidatos do PS, de duas listas de cidadãos eleitores e do PSD… ainda que este último ainda nem exista. Da CDU, com candidatura apresentada e um vereador eleito (o mesmo número que o PSD) e com pelouros atribuídos, nada.
Apesar de um espaço de comentário pessoal, Marques Mendes não está isento a um compromisso mínimo com a seriedade que obriga o tratamento de um acto eleitoral. Da mesma forma, a estação que o acolhe não fica ilibada de responsabilidades ao dar palco, sem contraditório, a uma visão retorcida e parcial das candidaturas autárquicas a dois municípios, até por ter sido feito num espaço editorial que ocupou mais de 40 por cento do principal noticiário da semana.