Sem pio, ou quase

Anabela Fino

O re­fe­rendo na Tur­quia de­correu num clima em que «as li­ber­dades fun­da­men­tais para um pro­cesso ge­nui­na­mente de­mo­crá­tico es­tavam re­du­zidas»; a forma como de­correu o re­fe­rendo «não está à al­tura dos cri­té­rios do Con­selho da Eu­ropa»; a de­cisão de con­ta­bi­lizar como vá­lidos bo­le­tins de voto sem o ne­ces­sário selo ofi­cial, «al­terou sig­ni­fi­ca­ti­va­mente o cri­tério de va­li­dade da vo­tação, en­fra­que­cendo uma im­por­tante sal­va­guarda e con­tra­ri­ando a lei»; a cam­panha do re­fe­rendo de­correu de forma «de­si­gual», com o par­tido do pre­si­dente Er­dogan (AKP) do­mi­nando quase por com­pleto os media... Estas al­gumas das con­clu­sões do re­la­tório da missão de ob­ser­va­dores da OSCE e do Con­selho da Eu­ropa ao re­fe­rendo de do­mingo, 16, na Tur­quia.

Tantas cau­telas de lin­guagem, se não con­se­guem iludir a re­a­li­dade, não são for­tuitas. Do go­verno turco não se pode dizer que pro­moveu uma con­sulta po­pular que não foi «de­mo­crá­tica e trans­pa­rente», para usar o lé­xico ofi­cial. E porquê? Porque Er­dogan é um aliado. In­có­modo, mas um aliado. Daí que a de­mo­crá­tica se­nhora Merkel, ig­no­rando o re­la­tório, tenha pe­dido a Er­dogan «um diá­logo res­pei­toso» com a opo­sição, en­quanto o se­nhor Trump fe­li­ci­tava o seu ho­mó­logo pelo seu con­tes­tado su­cesso.

O mais cu­rioso de tudo isto, porém, nem se­quer é a acei­tação (quase) acrí­tica dos re­sul­tados de um re­fe­rendo «pouco de­mo­crá­tico», mas a es­pan­tosa falta de ad­jec­ti­vação quando se trata de clas­si­ficar a «re­forma» a que o mesmo abriu as portas: emendas cons­ti­tu­ci­o­nais para subs­ti­tuir o sis­tema par­la­mentar por um pre­si­den­cial, su­pressão do papel do pri­meiro-mi­nistro, amplo con­trolo pre­si­den­cial dos po­deres ju­di­ciais e le­gis­la­tivos, pos­si­bi­li­dade de Er­dogan per­ma­necer no poder até 2029, pena de morte, etc., etc. Fossem ou­tras as la­ti­tudes e já os galos es­ta­riam a cantar «di­ta­dura, di­ta­dura». Tra­tando-se de um aliado, mais a mais da NATO, os galos, se se atrevem a cantar, cantam muito, mas muito bai­xinho.

 



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