Sem pio, ou quase
O referendo na Turquia decorreu num clima em que «as liberdades fundamentais para um processo genuinamente democrático estavam reduzidas»; a forma como decorreu o referendo «não está à altura dos critérios do Conselho da Europa»; a decisão de contabilizar como válidos boletins de voto sem o necessário selo oficial, «alterou significativamente o critério de validade da votação, enfraquecendo uma importante salvaguarda e contrariando a lei»; a campanha do referendo decorreu de forma «desigual», com o partido do presidente Erdogan (AKP) dominando quase por completo os media... Estas algumas das conclusões do relatório da missão de observadores da OSCE e do Conselho da Europa ao referendo de domingo, 16, na Turquia.
Tantas cautelas de linguagem, se não conseguem iludir a realidade, não são fortuitas. Do governo turco não se pode dizer que promoveu uma consulta popular que não foi «democrática e transparente», para usar o léxico oficial. E porquê? Porque Erdogan é um aliado. Incómodo, mas um aliado. Daí que a democrática senhora Merkel, ignorando o relatório, tenha pedido a Erdogan «um diálogo respeitoso» com a oposição, enquanto o senhor Trump felicitava o seu homólogo pelo seu contestado sucesso.
O mais curioso de tudo isto, porém, nem sequer é a aceitação (quase) acrítica dos resultados de um referendo «pouco democrático», mas a espantosa falta de adjectivação quando se trata de classificar a «reforma» a que o mesmo abriu as portas: emendas constitucionais para substituir o sistema parlamentar por um presidencial, supressão do papel do primeiro-ministro, amplo controlo presidencial dos poderes judiciais e legislativos, possibilidade de Erdogan permanecer no poder até 2029, pena de morte, etc., etc. Fossem outras as latitudes e já os galos estariam a cantar «ditadura, ditadura». Tratando-se de um aliado, mais a mais da NATO, os galos, se se atrevem a cantar, cantam muito, mas muito baixinho.