Duas cimeiras e nós

Albano Nunes

A verdade é que as várias frações da classe dominante já se entenderam

Face às campanhas de diversão ideológica da classe dominante, nunca é demais insistir em que o capitalismo vive uma crise profunda, uma crise cujo fatal desenlace vai conseguindo adiar porque tarda em reunir as forças sociais e políticas necessárias à sua superação revolucionária. Preencher esta lacuna histórica é a grande tarefa dos comunistas e revolucionários de todo o mundo, o que desde logo exige firmeza de princípios e análise certeira da realidade. As ilusões e erros de avaliação em relação à natureza de classe da União Europeia custaram e ainda estão a custar muitíssimo ao movimento comunista e revolucionário internacional. No que respeita ao PCP, as suas análises e prevenções continuam a ser confirmadas todos os dias. As celebrações do 60.º aniversário dos tratados fundadores da CEE, concebidas para vitoriar os «pais fundadores» e «relançar» o processo de integração capitalista, acabaram pelo contrário por expor os impasses e contradições que minam a UE e mostrar a impossibilidade de um outro rumo que «reconcilie» a política de exploração e rapina do grande capital com uma opinião pública crescentemente hostil.

Depois das comemorações pífias de Roma, em que, para além de uma mãozinha do Papa – que apesar de indispensáveis distanciamentos admitiu que na base da criação da CEE estiveram valores altruístas –, o elemento mais marcante foi o fortíssimo dispositivo de repressão policial, as instâncias supranacionais da UE anunciaram uma vasta campanha de propaganda, a InvestEU, para tentar convencer os povos das excelências da UE, ao mesmo tempo que fingem querer debater publicamente as falsas alternativas do Livro Branco de Juncker para «democraticamente» construir decisões que ainda não teriam sido tomadas. É preciso desmascarar este duplo embuste. Se é certo que as dificuldades e contradições são de tal monta que a cimeira de Roma – invocando nomeadamente as incertezas do Brexit, de Trump ou das eleições na França e na Alemanha – não pôde anunciar absolutamente nada de mobilizador em relação à Europa dos monopólios, a verdade é que as várias frações da classe dominante já se entenderam sobre os pilares fundamentais do caminho que se propõem trilhar: prosseguimento das políticas de exploração e pilhagem (bem visíveis no continuado processo de ingerências em relação a Portugal), reforço do directório das grandes potências a coberto da «Europa a várias velocidades», prioridade absoluta às políticas de Segurança e Defesa.

Em relação a esta última questão está já claramente assumido que nem as consequências do Brexit nem os humores de Trump interferirão e que o anunciado aumento das despesas militares é para avançar, aconteça o que acontecer. Coexistindo com a agudização das rivalidades e contradições entre as grandes potências capitalistas, a solidariedade de classe contra os trabalhadores e contra os povos e a natureza da UE como bloco imperialista com pretensões planetárias são realidades que é necessário combater com determinação quando se aproxima a Cimeira da NATO de 25 de Maio em Bruxelas.




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