Comunistas e católicos
«O PCP, os católicos e a Igreja» foi o tema de um debate realizado recentemente em Gondomar, onde se partiu da obra homónima de Álvaro Cunhal para o actual debate sobre a unidade.
A divisão é entre exploradores e explorados, crentes ou não
Realizado nas instalações da Junta de Freguesia de São Cosme, em Gondomar, a sessão promovida pela Comissão Concelhia do PCP contou com a participação de Carlos Gonçalves, Edgar Silva, Sérgio Dias Branco e Jorge Sarabando e com a presença de cerca de meia centena de pessoas. A assistência, sempre muito atenta e viva, lançou questões importantes para o debate, ricas pelo seu conteúdo e significado e expressou reflexões amadurecidas nos vários percursos de vida.
Um dos traços mais salientes das diversas intervenções foi o reconhecimento por parte de vários militantes comunistas da sua condição de católicos e de como foi para alguns justamente a vivência da fé cristã – no que ela inspira de atenção aos outros, pelos mais frágeis e pelos explorados – que os conduziu à decisão de se filiarem no Partido, pelo que essa filiação traduz de vontade de transformar o mundo. Todos, sem excepção, realçaram que aquando da sua adesão ao PCP ninguém os questionou sobre se professavam alguma religião e qual.
Edgar Silva, antigo padre católico e membro do Comité Central do PCP, descreveu o que tem sido a evolução do pensamento cristão e como se elevou da simples missão de «salvar a alma» para uma maior consciência social e intervenção cívica, e luta pela liberdade, justiça e dignidade humana. E lembrou como a Igreja Católica se foi afastando, sobretudo a partir do Concílio Vaticano II, de qualquer ideia de partidos ou sindicatos confessionais.
Sérgio Branco, militante comunista e activista católico, ao referir-se à Teologia da Libertação e aos princípios que a norteiam, lembrou o sacrifício de vários religiosos através da História e fez um emotivo relato do interrogatório de Frei Betto pelos torcionários da polícia política da ditadura brasileira.
Intervenção de décadas
Carlos Gonçalves, da Comissão Política, traçou um panorama da intervenção do PCP ao longo de décadas nestas matérias, nomeadamente desde os textos marcantes de Álvaro Cunhal sobre comunistas e católicos, escritos nos anos 40 do século XX. Nessa altura, o dirigente do PCP reconheceu o papel profundamente negativo exercido por grande parte da hierarquia católica e do clero ao apoiarem o fascismo, ao mesmo tempo que insistia na necessidade de unir esforços na luta pela liberdade com muitos milhares de católicos. Os últimos anos da ditadura, com a guerra colonial, ficaram marcados pela crescente afirmação dos movimentos de católicos progressistas.
O membro da Comissão Política recordou ainda a intervenção de Álvaro Cunhal num dos momentos mais críticos do período revolucionário, quando os centros de trabalho do PCP e sedes de outras organizações de esquerda sofriam constantes assaltos organizados pela rede terrorista, a que algumas figuras da Igreja se associaram: o então Secretário-geral do Partido, e o próprio Partido, muito contribuíram para que não ressurgisse em Portugal uma «questão religiosa», como sucedeu durante a Primeira República.
Ao referir-se ao momento actual da Igreja, designadamente ao significado da Encíclica «Laudato Si» e às críticas que suscitou em determinados sectores, Carlos Gonçalves concluiu que a «luta de classes atravessa a História» e, naturalmente também, a própria Igreja Católica. Do debate ficou claro que a contradição essencial do nosso tempo não é a separação entre crentes e não crentes mas a que opõe os explorados aos exploradores.