Lado a lado
A apresentação das «memórias» de Cavaco e o sururu suscitado pelo evento que alguns chegaram mesmo a classificar como o aggiornamento do cavaquistão, a que se seguiu a expectável série de comentários às partes mais picantes, chamemos-lhe assim, da volumosa obra – 600 (seiscentas!) páginas a dizer mal de Sócrates, segundo as más línguas – fez-me lembrar de um outro livro de «memórias» que também teve o seu momento de (má) publicidade aqui há uns tempos. Falo do 'livro proibido' de José António Saraiva, claro, que ao contrário de Cavaco teve de anular a anunciada apresentação pública por falta de comparência do apresentador convidado, Passos Coelho, que se descomprometeu do compromisso assumido depois de meio mundo da opinião publicada ter desancado o autor por dar à estampa o que diz ter ouvido em conversas privadas, coisa de resto reconhecida na introdução e reforçada na ilustração da capa com um buraco de fechadura numa mensagem deliberadamente óbvia.
Por uma daquelas coincidências com que a vida não pára de nos surpreender, quem sentir interesse pelas duas obras irá por certo encontrá-las a partilhar a mesma prateleira das livrarias, quiçá mesmo encostadinhas uma à outra, já que de Saraiva a Silva não dista grande distância, para além do facto de partilharem a mesma temática. Com efeito, do simbólico buraco da fechadura a que Saraiva recorreu para ir anotando na memória ou no diário as inconfidências – o termo é do próprio – que lhe foram sendo feitas ao longo de décadas de conversas privadas, do buraco da fechadura do ex-director do Expresso e do Sol, repete-se, às quatro paredes da sala das reuniões de quinta-feira e outros dias de Cavaco vai a mesma distância que de Saraiva a Silva, ou seja um quase nada. O primeiro garante que as suas memórias não são um «ajuste de contas», o segundo diz que as suas são um «presta contas». Contas feitas, ambos trazem a público sem réstia de vergonha o que seria suposto permanecer privado, o que é uma forma de revelarem a sua degradante falta de princípios. É caso para dizer, como dos respectivos livros, que merecem a companhia um do outro.