Portugal a sério

Henrique Custódio

Quatro meses depois de a oposição da direita impor a Comissão Parlamentar de Inquérito à Recapitalização da Caixa Geral de Depósitos e à Gestão do Banco, aconteceram duas coisas – prolongou-se por mais três meses o prazo desta comissão (porque os seus proponentes, PSD e CDS, abandonaram objectivamente o inquérito à recapitalização para se engalfinharem na «troca de correspondência» entre o ministro Centeno e o ex-presidente da CGD Domingues) e o PSD começou a falar de uma nova comissão de inquérito, desta vez dedicada à tal «correspondência».

Pelo que ficam já duas notas.

A primeira, a de que o PSD está a utilizar as comissões de inquérito na Assembleia da República como arma política tout court, brincando com elas como um jongleur de feira e já vai em duas: uma comissão que não completou o seu trabalho (apesar de «fundamental para o País») e a AR teve de a prolongar, outra, que quer substituir a primeira e, a par e com ela, prosseguir em duas comissões o chinfrim político pretendido por PSD e CDS contra o Governo PS – nada mais do que isto.

Para quem tanto desarvorou em prol das «liberdades regimentais» e o «respeito pelo Parlamento», este achincalhamento das Comissões de Inquérito diz tudo do que esta gente anda por aqui a fazer.

A segunda nota é uma evidência resultante do entremez: o PSD e o CDS estão-se literalmente nas tintas para a vida da Caixa Geral de Depósitos, tal como demonstram uma total indiferença pelos graves problemas que anunciavam quando lançaram, em furor potestativo, a Comissão de Inquérito agora «protelada». E os problemas (que continuam actuais e não averiguados) tanto são os imbróglios das recapitalizações (onde os seus governos, o PSD, o CDS e também o PS tiveram fundas e totais responsabilidades), como é a «gestão do banco» no porvir, onde demonstraram à saciedade que o que querem mesmo é que ela não exista, tal como a CGD, na sua configuração de banco público.

A destruição da CGD como banco público é, enfim, o gato escondido com o rabo de fora desta história montada por PSD e CDS. E o País já está farto de o saber.

Mas o mais extraordinário é ver esta gente do antigo PaF a vociferar, tremendista, contra «as mentiras de Centeno», esquecendo, não menos tremendamente, que eles próprios, enquanto governo, mentiam todos os dias e em todas as dimensões, tendo como referência gente como Maria Luís Albuquerque e as mentiras dos swaps ou Miguel Relvas e os cursos de fim-de-semana (e por aí fora).

Com os problemas que o País enfrenta, a única coisa que interessa ao PSD e ao CDS... são as mensagens trocadas entre Domingues e Centeno.

Parece que vivemos num país de opereta, onde o PSD tem ainda o desplante de arranjar como consigna política... «Levar Portugal a Sério».




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