Trump é o capitalismo

António Santos

LUSA

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Longe vai o tempo em que «democracia» fazia as vezes de «capitalismo» no léxico político dominante. Quando, parafraseando Churchill, se repetia que «a democracia é a pior forma de governo, excepto todas as outras», absolvia-se o capitalismo de todos os crimes porque, ao contrário de «todos os outros», este sistema ao menos é democrático. A confusão, tão deliberada como astuta, foi rentável durante décadas mas na era de Trump não passa de uma anedota.

Enquanto correm rios de tinta sobre o risco do fascismo reerguer a monstruosa cabeça do outro lado do Atlântico, não sabemos ao certo se essa viragem já começou ou sequer como distingui-la quando a virmos. A velha confusão entre eleições pluripartidárias e exploração do trabalho assalariado está a dissolver-se insidiosamente num terceiro elemento, o fascismo, prova de que o capitalismo pode ter começado a abandonar definitivamente o casulo democrático. Afinal, o capitalismo não nasceu democrático e não há nenhuma razão para acreditar que morrerá democrático. À semelhança dos anos vinte e trinta, todas as aproximações ao fascismo no século XXI têm sido recebidas pelos «democratas» de turno ora com benevolência crítica, ora como apoio directo, mas ninguém trata a Hungria, os EUA ou a Ucrânia como «ditaduras».

Sinclair Lewis disse uma vez que «quando o fascismo chegar à América virá enrolado na bandeira e com um crucifixo na mão». É esse o problema de tratar a política como um universo paralelo à luta de classes: o fascismo não chega necessariamente aos urros a proclamar-se fascista porque é uma solução dos mesmos capitalistas que dias antes andavam aos urros a proclamar-se donos da democracia. E quem andar distraído, convencido de que não há nada sob o sol mais democrático do que uma ditadura burguesa, arrisca-se a nem notar a diferença.

O ai dos vencidos

As fricções entre diferentes sectores do grande capital estado-unidense são testemunho da profundidade desta crise estrutural do capitalismo que pode desembocar em fascismo, mas seria imprudente atribuir a Soros e aos seus correligionários a liderança da resistência a Trump. Pelo contrário, nas manifestações e vigílias que diariamente têm lugar, é notória a evolução de muitos trabalhadores «liberais» próximos do Partido Democrata para posições anti-capitalistas. Dos taxistas da cidade de Nova Iorque aos professores de Chicago, passando pela greve dos imigrantes iemenitas, emerge espontaneamente uma solidariedade de classe que une sob a mesma bandeira as solidariedades com a luta de todos os trabalhadores, dos negros, dos imigrantes, das mulheres, dos povos nativos ou das pessoas LGBT.

A evolução da resistência popular a Trump é ela própria encorajada pela ineficácia dos instrumentos institucionais controlados pelo Partido Democrata. Trump governa como um golpista e quando surge um obstáculo institucional, legal ou democrático, trata de removê-lo por decreto. Enquanto nos círculos da alt-right [direita alternativa] mais próximos de Trump a própria Constituição dos EUA surge crescentemente como um estorvo inconveniente, os democratas encenam o ai dos vencidos e pagam o ferro na balança.

Neste estado de coisas, para muitos jovens estado-unidenses o apelo do socialismo é descoberto com a força de guardião de todos os direitos democráticos conquistados ao capital ao longo de dois séculos.




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