Regimes e ditadores

Vasco Cardoso

Há vários anos que os principais órgãos de comunicação social, particularmente norte-americanos, tinham preparado o obituário que divulgariam após a morte de Fidel Castro. Consta até que alguns dos jornalistas que se empenharam nessa missão, confundindo o desejo com a realidade, partiram primeiro do que o próprio Fidel, que não só sobreviveu a estes, como a várias tentativas de assassinato. O objectivo de não perder um só segundo, na gigantesca operação política que se sucederia após o desaparecimento da principal figura da Revolução Cubana a isso obrigava. O efeito foi imediato. As centrais de informação do imperialismo, que determinam muito daquilo que o mundo vê, particularmente na televisão, puseram-se em campo para desvendar os crimes e massacres, a opressão e a miséria a que Fidel condenara o seu próprio povo.

Incapazes de esconder o processo heróico de luta e resistência do povo cubano, as realizações e avanços notáveis alcançados pela revolução, pese embora as intervenções militares, o criminoso bloqueio e a ingerência externa da maior potência mundial sobre aquele país, a ofensiva ideológica fixou-se na clássica classificação do «regime» e do «ditador».

Por cá, a nossa imprensa não desalinhou das vozes do império. «Um ditador é um ditador» titulava o Expresso o seu último editorial, e o registo foi idêntico nas rádios e televisões, nos comentários e artigos de opinião que se sucederam na repetição nauseabunda da ideia. Na Europa, nos EUA e no restante «mundo livre» não há «regimes» e, por conseguinte, não há «ditadores». «Regimes» há em Angola, na Síria, na Venezuela. «Regimes» e «ditadores», essa útil etiqueta que legitima as mais brutais guerras e agressões com o cortejo de morte e destruição que se lhes conhece e que passam para a penumbra das notícias após a consumação dos actos, como aconteceu na Líbia ou no Iraque onde agora pontifica a paz e a prosperidade, como aliás toda a gente sabe.

Fidel, como revolucionário e patriota que era, sabia que a luta pela dignidade e soberania do seu povo estaria muito para lá sua morte. A genuína e impressionante homenagem prestada por milhões de cubanos ao longo destes dias é o maior desmentido que se poderá fazer face à campanha que foi montada. Cuba vencerá!




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