O fel do medo
O primeiro ano de governação do Executivo de António Costa foi assinalado na generalidade dos órgãos de comunicação social com um muito mal disfarçado, quando não mesmo assumido, amargo de boca. Forçados a reconhecer, embora a contragosto, que as eleições legislativas se destinam a eleger deputados e não o primeiro-ministro, e que a formação do Governo depende da correlação de forças existente na Assembleia da República, os fazedores da opinião publicada passaram a dedicar-se a uma espécie de jogo da glória em que o vencedor seria quem primeiro adivinhasse não se mas quando é que o PCP, BE e Partido Ecologista «Os Verdes», rotulados de esquerda radical, «tirariam o tapete» ao Governo PS e/ou quando é que as medidas de reposição de direitos e rendimentos que entretanto foram sendo implementadas provocariam as mais tenebrosas catástrofes. Na primeira linha deste jogo de futurologia macabra perfilou-se desde a primeira hora Passos Coelho, como é público e notório, mais uns quantos crentes na vinda do diabo.
Como ao fim de um ano as previsões não se confirmaram e Passos está cada vez mais sozinho a pregar no deserto, o discurso, mas não o fel, foi mudando nos media, a pontos de haver agora quem rotule de «habilidades» as medidas que até há pouco tempo eram apresentadas como susceptíveis de provocar abalos telúricos na confiança dos investidores e tsumanis na economia nacional.
Reposição de feriados? Um truque fácil que agrada a todos e sem consequências de maior. Aumento das pensões a milhões de reformados? São trocos, senhores, são trocos a pensar nas eleições autárquicas. Eliminação da sobretaxa do IRS? Mais uns trocados para enganar papalvos, que é como são escritas as histórias de sucesso.
O desprezo pelas condições de vida de milhões de portugueses subjacente nas palavras de quem assim escreve roça o abjecto. Porque não é por ignorância que se fala de feriados como de uma «folga», omitindo que o que estava em causa era trabalhar sem receber, tal como não é por ignorância que se chama «trocos» ao que, sendo pouco, tanta falta faz a quem pouco tem, ou se reduz a uma caricatura o muito que já foi revertido das políticas de espoliação levadas a cabo pelo governo PSD/CDS. É mesmo ódio de classe de quem, olhando de cima, tem medo, muito medo, dos que não se resignam a estar em baixo.