Já não salvam

Henrique Custódio

Confirmando o perfil rasca e oportunista que o episódio de se disfarçar de «rapaz das pizas» já revelava, François Hollande, ainda Presidente da República francesa, protagonizou um livro que infligiu um duro golpe na sua presidência, no seu governo e no seu partido.

O livro foi elaborado por dois jornalistas do Le Monde, que o acompanharam no Eliseu desde o início do mandato e que Hollande esperava ver publicado depois de sair do cargo presidencial. Saiu agora e é um desastre.

Hollande diz mal do primeiro-ministro e do presidente da Assembleia Nacional francesa, insulta juízes e magistrados acusando-os de «cobardia» e até os atletas da selecção nacional não escapam de ser acusados de «exercitarem pouco o cérebro» (coisa que Hollande exercita abundantemente, para produzir dislates que enchem 600 páginas). Também reconhece que deu ordem aos serviços secretos para assassinarem quatro pessoas, coisa que noutros governos (e noutras potências) se distingue com um pormenor: tudo é feito também por serviços secretos, mas fica mesmo secreto, não sendo usual chefes de Estado divulgarem em livro os assassinatos que ordenam.

Deixando de lado este hara-kiri de Hollande em 600 páginas, atenhamo-nos num pormenor que lá está e que até o Expresso já explorou.

Trata-se do «acordo secreto» que Hollande confessa ter feito com Durão Barroso e Claude Juncker (nos mandatos presidenciais da CE), para «maquilhar» as contas do défice francês. A coisa foi, obviamente, apadrinhada pela Sra. Merkel e assinada pelo Sr. Schouble, o mesmo que investiu contra a Grécia e Portugal qual cavaleiro teutónico a brandir sobre as relapsas cabeças a espada vingadora dos deuses por... não «cumprirem o défice» previsto de três por cento, o mesmo que foi acordado com Hollande não valer para a França – aliás, como diria o Sr. Juncker em jeito de «desculpa», «a França é a França».

Anotemos também Durão Barroso, que assinou pela UE este pacto secreto que libertava a França de cumprir o défice, enquanto brandia o dedinho para Portugal, ameaçando que ou cumpríamos a meta ou «tínhamos o caldo entornado». Como se confirma, um patriota apesar de invertebrado, coisa que já ninguém deve desconhecer (Hollande atestou, no tal livro: Barroso «é fraco e dobrável»).

A União Europeia surgiu como união de países em prol do desenvolvimento económico e social conjunto e transformou-se numa arena onde não se luta, apenas se obedece – os mais fracos aos mais fortes; impôs uma moeda única em nome da «coesão» e o que emergiu foi a ditadura exploradora dos «credores» sobre os «devedores», que produz dívidas exponenciais e impagáveis, impede o desenvolvimento e espalha a miséria.

Os «acordos secretos» já não salvam a França, quanto mais esta União Europeia.

 



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