Eleições norte-americanas
Clinton e Trump não representam visões distintas
Estas palavras são escritas quando ainda não são conhecidos os resultados das eleições presidenciais nos Estados Unidos, após uma degradante campanha eleitoral protagonizada pelos dois candidatos, Hillary Clinton e Donald Trump, a «escolha» imposta ao povo norte-americano, embora com a erupção de contradições, pelos partidos do sistema – Partido Democrata e Partido Republicano –, à custa de muitas centenas de milhões de dólares e da acção dos grandes meios de comunicação social dos grandes grupos económico-financeiros.
As eleições presidenciais norte-americanas têm lugar após dois mandatos de Barack Obama, que tomou posse no início de 2009 com a promessa de «mudança», no pico da explosão de crise em 2007/8 com epicentro nos Estados Unidos. Passados oito anos, as medidas sucessivamente tomadas de injecção de milhares de milhões de dólares no sistema financeiro tiveram como efeito uma economia com um crescimento anémico, que não conseguiu, quase dez anos depois, ultrapassar a crise em que mergulhou, nem contrariar a tendência do seu declínio económico relativo, apesar do autêntico saque que os Estados Unidos levam a cabo no plano mundial. A sociedade norte-americana continua marcada por profundas e crescentes injustiças, desigualdades e discriminações sociais.
Igualmente na política externa a «mudança» marcou passo. Oito anos depois, a prisão na base militar de Guantánamo não foi encerrada. Continua a guerra dos EUA no Afeganistão. Os Estados Unidos voltam a ter tropas no Iraque, de onde efectivamente nunca saíram. Os drones norte-americanos continuam a assassinar. A Líbia e o seu Estado foram brutalmente destruídos. A Síria agredida por grupos de mercenários e a sua soberania e integridade territorial desrespeitada. Na Ucrânia, os EUA promoveram um golpe que foi perpetrado por oligarcas e grupos fascistas. Prossegue a instalação do sistema anti-míssil dos EUA na Europa e, agora, na Ásia. Recupera-se a histeria da «ameaça» russa. Apesar de firmado, o acordo com o Irão aguarda pela ratificação dos EUA. Foram dados passos em relação a Cuba, no entanto o bloqueio dos EUA mantém-se. Exemplos, entre muitos outros, que comprovam que os Estados Unidos prosseguiram a sua política militarista, de desestabilização e de guerra contra todos quantos no mundo rejeitam e resistem à imposição da sua «ordem mundial», política de agressão que tanto sofrimento e destruição tem provocado.
Poderá afirmar-se que Obama não sai mais desgastado dos seus mandatos porque há a percepção clara de que as candidaturas de Hillary Clinton e de Donald Trump personificam o que mais de reaccionário e negativo caracteriza o Partido Democrata e o Partido Republicano, sendo ambos vistos como males, ora maior, ora menor. Trump utiliza um discurso xenófobo e populista, colocando-se falsamente numa posição anti-sistema, com que procura chegar a milhões de norte-americanos que sabe estarem no desemprego, na precariedade, na pobreza, com um sentimento de desilusão e de indignação. Clinton, vista (e assumida) como a candidata do sistema reúne em torno de si os interesses predominantes do capital financeiro e do complexo militar-industrial, apesar da sua mal disfarçada natureza de «falcão». Não iludindo diferenças, Clinton e Trump não representam visões distintas quanto a aspectos fundamentais da sociedade norte-americana ou da política externa dos Estados Unidos.
Está nas mãos dos trabalhadores e povo norte-americano a construção de uma real alternativa, dando corpo à critica e à rejeição do domínio do capital financeiro de «Wall Street», do complexo militar-industrial, isto é, do denominado «stablishment» que domina os EUA, critica e rejeição que tiveram importante expressão ao longo deste processo eleitoral.