Se cá nevasse...

Anabela Fino

A vice-pre­si­dente do PSD Maria Luís Al­bu­querque teve a se­mana pas­sada um ines­pe­rado ataque de sin­ce­ri­dade que me deixou, con­fesso, de queixo caído. É certo que se tratou de uma ver­dade de La Pa­lice, uma au­tên­tica la­pa­li­çada, como soe dizer-se, mas ainda assim não deixa de sur­pre­ender a dis­pli­cência com que a ex-mi­nistra do go­verno PSD/​CDS re­co­nheceu o que tantos têm pro­cu­rado es­ca­mo­tear. «Se eu fosse mi­nistra das Fi­nanças a questão das san­ções não se co­lo­cava», disse MLA, com mais li­gei­reza do que por ven­tura diria «se cá ne­vasse fazia-se cá ski», re­frão duma po­pular mú­sica do início dos anos 80 do sé­culo pas­sado.

Ins­tada a dar ex­pli­ca­ções, MLA não podia ter sido mais clara: não ha­veria san­ções «porque a questão que se co­loca ver­da­dei­ra­mente é o que está a ser feito nestes meses de go­ver­nação, são as dú­vidas fun­dadas sobre as metas macro-eco­nó­micas e as re­formas es­tru­tu­rais. Foi com elas que con­se­guimos me­recer a con­fi­ança dos nossos par­ceiros eu­ro­peus. Se ti­vés­semos con­ti­nuado no go­verno essa cre­di­bi­li­dade não se perdia». Tro­cando por miúdos, o que MLA diz preto no branco é que as san­ções nada têm a ver com as dé­cimas a mais no dé­fice de 2015, cujo, nunca é de mais lem­brar, é da res­pon­sa­bi­li­dade do an­te­rior go­verno. O bu­sílis da questão é mesmo a in­versão, in­su­fi­ci­ente em­bora, da po­lí­tica de des­truição na­ci­onal pros­se­guida pelo exe­cu­tivo PSD/​CDS.

Se Maria Luís ainda fosse mi­nistra, as ins­tân­cias da UE es­ta­riam a aplaudir a ma­cha­dada de 600 mi­lhões de euros na Se­gu­rança So­cial, a con­sa­gração de­fi­ni­tiva dos cortes ditos pro­vi­só­rios nos sa­lá­rios da Função Pú­blica, a re­dução das pen­sões e das pres­ta­ções so­ciais, o au­mento do ho­rário de tra­balho, o em­po­bre­ci­mento ge­ne­ra­li­zado da po­pu­lação, as pri­va­ti­za­ções a preço de saldo, a eli­mi­nação das fun­ções so­ciais do Es­tado, a as­censão da ca­ri­da­de­zinha, o ema­gre­ci­mento do Es­tado e a en­gorda do ca­pital, etc., etc., etc. Isso mesmo terá ga­ran­tido a MLA o mi­nistro das Fi­nanças alemão, Schäuble, quando se en­con­traram na re­cente reu­nião do Grupo Bil­der­berg. É um su­po­nhamos...

Se MLA ainda fosse mi­nistra... outro galo can­taria, sem dú­vida. A cha­tice, perdoe-se a ex­pressão, é esta coisa da de­mo­cracia. Não se pode ex­ter­miná-la?




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