Mais difícil

Henrique Custódio

Os jornalistas ou apresentadores de televisão, em Portugal, quase não sabem fazer a contagem ordinal, substituindo-a sistematicamente pela contagem cardinal. A situação é escandalosa entre os comentadores de futebol, onde se diz «está no lugar 51» em vez de «quinquagésimo primeiro» ou se aponta «a internacionalização 94» ou «o golo 147» em vez de «nonagésima quarta internacionalização» ou «centésimo quadragésimo sétimo golo». E isto são meros exemplos.

Mas o descalabro não se esgota nos programas de futebol, alastra pelos pivôs ou apresentadores de telejornal, que costumam exibir a mesma dose de ignorância, aviando descansadamente qualquer quantificação ordinal com números cardinais.

Se esta ignorância das contagens cardinais e ordinais é uma falha de formação elementar – inaceitável em qualquer jornalista ou profissional de televisão –, que dizer dos responsáveis pelos canais?

Não vamos supor que ignoram o facto ou nem sequer dão por ele. Impossível. Não se pode ser responsável por um canal de televisão, mais as suas programações, grelhas, shares, responsabilidades éticas e estéticas e não conhecer a diferença entre números cardinais e ordinais.

Pelo que a sobrevivência (e persistência) desta calinada de português na televisão só pode resultar da mesma irresponsabilidade que levou todos os canais a acolher apressadamente e sem critério o novo «Acordo Ortográfico», ajudando exponencialmente o desconchavo ortográfico a irradiar.

Já não falamos das faltas de concordância, da conjunção errada dos verbos ou das pronúncias eivadas de regionalismos, que polvilham regularmente as emissões televisivas.

Mas trocar os números ordinais por cardinais, em televisão, é negligência já impúdica e vergonhosa.

Os jornalistas televisivos (e quejandos) são, entretanto, muito diligentes a copiar vocábulos e expressões (que eles fazem «da moda») ditas por políticos de direita. Dois casos recentes ilustram a coisa – o «de ou pra futuro», de Passos Coelho, e a «geringonça», de Paulo Portas. Há uma grossa maquia deles, é só desfiar por aí fora.

Atenhamo-nos às expressões politicamente calculadas, com efeito previsto e repetidas à exaustão por todos os órgãos de informação. É o caso do «vivemos acima das nossas possibilidades», do «sair da zona de conforto», do «é preciso fazer sacrifícios», do «temer os mercados» ou «não assustar os mercados», também só para darmos alguns exemplos.

Estas e outras quejandas expressões, repetidas ad nauseam pela generalidade dos órgãos de comunicação, fizeram mossa e entraram no linguajar nacional, com decorrente empobrecimento cívico e civilizacional do nosso povo.

Essas contas são mais difíceis de acertar do que os números ordinais.


 



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