Tudo às claras
Maria Luís Albuquerque, a ministra das Finanças de Passos Coelho, cuja nomeação motivou a irrevogável demissão de Paulo Portas (não sei se se lembram da cena!) esteve este fim-de-semana na reunião de Bieldberg, com o CEO da Galp, homem de mão do homem mais rico do País.
Como é que Bieldberg funciona ninguém sabe muito bem, desde logo porque os que já lá estiveram, apesar de afirmarem que é tudo muito natural e nada conspirativo, mantêm depois de vir um silêncio sepulcral sobre a matéria.
O pouco que se sabe é que, anualmente, pouco mais de uma centena de individualidades se juntam, num sítio quase secreto, a convite de um dito Comité Director que, desde o ano passado, inclui o insuspeito Durão Barroso, que substituiu o ainda menos insuspeito Francisco Balsemão.
O que se sabe também é que do restrito leque de convidados fazem parte, invariavelmente, a fina flor do capital e dos seus representantes, de que os nomes aqui referidos são cabais exemplos, para além dos putativos líderes da direita e da social-democracia.
António José Seguro, Manuela Ferreira Leite, José Sócrates, Paulo Portas, passaram por lá, e das quase oito dezenas de convidados para tão secreta quanto, imagino que para os próprios, honrosa iniciativa, mais de 90 por cento foram secretários de Estado, ministros, futuros ministros, primeiros-ministros ou líderes dos partidos da política de direita. Ser convidado para Bieldberg deve ser uma espécie de selo de garantia do bando de malfeitores que, ao serviço do capital, tem dirigido os destinos de Portugal e de muitos outros países. Afinal, não é todos os dias que se está na mesma camarilha que Wolfgang Schauble, o ministro das Finanças alemão.
Diz Maria Luís, em declarações a um jornal, que não vê como é que isto pode ser considerado conspirativo. Diz ela que não se tomam lá «decisões executivas». Pelo vistos lá só se definem as grandes orientações. Os pormenores e a sua aplicação concreta são vistos na UE ou nos conselhos de ministros.
Pela nossa parte já sabemos que em Bieldberg se decidirão anualmente, no maior dos secretismos, as orientações para tentar salvar o capital e agravar a exploração dos trabalhadores e o empobrecimento dos povos. Nas empresas e nos locais de trabalho, nas ruas, nas escolas, nos campos, tem que se decidir dia a dia, tudo às claras, as lutas por um país e um mundo melhores.