Cuidado com as imitações

Margarida Botelho

Já se sabe que Marcelo Rebelo de Sousa começou a campanha que o iria levar a Presidente da República há muitos anos. E durante a campanha propriamente dita para as eleições presidenciais, Marcelo esforçou-se por esclarecer o mínimo possível sobre qualquer assunto relevante da sociedade portuguesa, não fosse ficar claro o seu completo enfeudamento à política de direita, o seu compromisso de sempre com o PSD, a sua absoluta indiferença aos problemas dos trabalhadores e do povo.

A táctica continuou na tomada de posse e nos primeiros meses de mandato: Marcelo popular, simpático, beijoqueiro, «o professor», o que não é político, o que quer unir, o que é hiperactivo. Isto apesar de ter reafirmado sempre nos seus discursos o acerto da política do governo PSD-CDS, de retomar incansavelmente a tese do «bloco central», ou de ter convidado o presidente do Banco Central Europeu para a primeira reunião do Conselho de Estado.

As primeiras comemorações do 10 de Junho no mandato de Marcelo são a vários títulos exemplares da sua demagogia. Escolhemos apenas um episódio, o da ida à festa da Rádio Alfa, em Paris. Perante uma plateia vestida com as cores da selecção nacional, num grande concerto de música portuguesa, o apresentador chamou-o ao palco nos seguintes termos: «não me canso de dizer, não tem a ver com cores políticas: temos connosco o presidente mais popular de sempre, de todos os portugueses!»

E Marcelo seguiu o mote, que é o que mais lhe convém, bem ao sabor do discurso anti-partidos que de há uns anos a esta parte está na moda. «O povo é melhor do que os políticos», afirmou, com um gesto largo para trás, a mostrar que a comitiva governamental que o acompanhava no palco eram «os políticos». O bom povo eram os portugueses emigrantes e ele, Marcelo, acima disso. Nem povo, nem político, só a dizer factos e verdades.

Personalidades à parte, era exactamente esse o jogo de Cavaco: o não-político, o técnico, mas que foi primeiro-ministro dez anos e Presidente da República outros dez, com os magníficos resultados que estão à vista. Marcelo, apesar das selfies e dos beijinhos, encarna exactamente o mesmo projecto.




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