Cara e coroa

Jorge Cordeiro

Fértil em descobertas, aquela parte do País sempre pronta a vender gato por lebre redescobriu agora em Carlos Moedas, o ex-secretário de Estado-adjunto de Passos Coelho no governo PSD/CDS, um trunfo e aliado de Portugal na Comissão Europeia. Dir-se-ia que para azar do promotores, por mais ilimitada que seja a imaginação, a ausência de memória ou a descarada demagogia, dificilmente elas desmentem a realidade.

Em Moedas não há espaço para ver diferenças entre cara ou coroa, mas tão só a mera comprovação de que nele residem faces iguais da mesma moeda. A de quem esteve sempre do lado dos credores e ao serviço dos usurários para afundar o País e justificar o saque dos recursos nacionais. A de quem em 2013 se deleitava com os elogios da troika para corroborarem as previsões macro-económicas do governo PSD/CDS e as suas sinistras consequências, ou registava com agrado aquilo que chamava de contributo do FMI para o debate sobre a reforma do Estado apresentada pelo seu governo, que mais não era do que a projectada subversão constitucional do Estado e do regime democrático. Ou, ainda, quem a cada avaliação da troika a aproveitava para justificar a agenda de exploração e empobrecimento. Importado da Goldman Sachs para o governo, Moedas foi para a troika o que a gazua é para o larápio: o instrumento essencial de operacionalização da agenda de declínio imposto ao País.

Tentar ver Moedas com outros olhos que não sejam os de reconhecer nele alguém incapaz de olhar para o País sem pensar em o vender aos interesses da União Europeia, é pura efabulação. A tese de que Moedas representaria uma garantia de defesa dos interesse nacionais porque como ninguém conhece como Portugal esteve, onde está e para onde vai só pode ser lido como uma ameaça a levar a sério. É justamente por essas razões que Passos e Portas o guindaram a comissário europeu. Justamente para garantir que, aos que já lá moravam, se adicionava alguém que tendo infernizado a vida dos portugueses e garantido a drenagem do que ao povo e ao País pertence para as mãos dos salteadores, pode pôr tamanha experiência ao serviço dos interesses do capital transnacional.

 



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