O sr. Praet acha coisas

Margarida Botelho

Peter Praet é membro do Conselho Executivo do Banco Central Europeu. Antes disso, passou pelo FMI e pelo banco central belga. Um currículo que fala por ele e que nos deixa logo preparados para o pior. Para a grande maioria do povo português – e dos povos do resto da zona euro com grande margem de certeza também – é um ilustre desconhecido.

Mas a Peter Praet foi-lhe dada a missão de vir a Portugal explicar coisas importantes para o nosso devir colectivo. E Praet veio, os jornais do costume entrevistaram-no e o senhor disse coisas. Disse que tinha dúvidas sobre a consolidação orçamental do Estado português, defendeu os bancos «pan-europeus», questionou a política do actual Governo, ameaçou com a subida das taxas de juro – como se a taxas de juro não fossem eles lá no Banco Central Europeu que as manipulassem.

Praet resolveu falar também das 35 horas, questionando quanto custa a sua aplicação. Falou preocupado de reformas «revertidas», deixando claras as saudades que sente do governo PSD/CDS que o povo derrotou em Outubro passado.

Disse tudo com o ar técnico, científico e impenetrável a que o resto do tripé da troika já nos habituou. Mas o ar que pôs não disfarçou que tudo o que disse foi político. Como não disfarçou a arrogância imperial do colono que vem pôr no sítio as pretensões de dignidade do servo.

Não é que precisássemos de provas, mas as declarações do senhor Praet evidenciam que o BCE excede o mandato que tem. Desmentem que o Banco Central Europeu seja um banco «neutro», «ao serviço da economia». O BCE não passa de um «instrumento ao serviço dos grandes grupos económicos e financeiros, promovendo políticas neoliberais e passando por cima da vontade soberana dos estados nacionais», como tão bem caracterizou o PCP em nota de imprensa recente dos seus deputados no Parlamento Europeu.

Por muito que lhes custe, aos Praets e a quem eles servem, o povo português luta pela soberania e pela independência nacional. Luta pelo direito a decidir do seu próprio destino. Luta pela reversão das «reformas» que as troikas impuseram, e valoriza cada passo que os obriga a recuar. Porque basta de submissão, ingerência e exploração!




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