Mas têm

Henrique Custódio

Armou-se um aranzel com a greve portuária de Lisboa, em crescendo de há três semanas para cá. Houve «directos» televisivos em barda, foram na televisão ouvidos uma infinidade de peritos, cuja selecção cuidadosa conduziu à «conclusão generalizada» de que a greve estava a «cometer um atentado» contra a economia nacional, pronunciaram-se «especialistas» de todo o jaez, para disfarçar a omnipresença na pantalha das federações patronais, a perorar a sua particular visão do «interesse público», tonitruou-se a perda de não sei quantos milhões de euros por dia, por semana, por mês provocada pela paralisação do porto de Lisboa, sopesou-se dramaticamente «a queda das exportações», o «desprestígio dos portos nacionais», a fuga dos exportadores «para portos estrangeiros», imagens caóticas e crescentemente recriminatórias em relação aos grevistas, enquanto os pontos de vista destes «cumpriam os mínimos» – no caso, apareciam aqui e ali nos «directos» aos piquetes de greve, de improviso e a quente e foi um pau.

Ora, um conflito laboral desta difusão, desta envergadura, deste dramatismo, desta consequência e desta duração – desde que o governo Passos/Portas legislou em 2012, permitindo aos armadores e exportadores contratarem empresas externas de trabalho temporário para substituir os grevistas portuários –, não só teve o relevo supracitado nas televisões, como seria esperável o correspondente acompanhamento no desenlace do conflito.

Não o teve. Após 15 horas de reunião contínua entre sindicatos, armadores e Governo chegou-se a um acordo, cuja importância está amplamente explicitada no dramatismo televisivo (e de toda a informação) criado à sua volta.

Pois as televisões (e o resto da informação atrás) fizeram moita carrasco do resultado. Segundo os seus noticiários, o País, que estava mesmo, mesmo à beira do desastre com a greve dos estivadores de Lisboa, de repente fez-se um acordo e parece que houve Luz, a vida seguiu com a tranquilidade usual e aos costumes disse nada.

Para quem tanto reivindica o «jornalismo independente», temo-lo aqui em seu esplendor, neste tratamento televisivo da greve dos estivadores.

As televisões – com a pública RTP na vanguarda – nem tentam disfarçar tanto empenho no desenlace do conflito a favor do patronato e da direita pendurada no revanchismo de Passos Coelho. Esboçar tal disfarce seria fazer uma cobertura mínima do resultado das 15 horas de duras negociações. Mas não. Deram a notícia e seguiram em frente, como se o drama que tinham engendrado não tivesse existido e o caos que haviam anunciado ao País, pondo gente a rasgar as vestes e a uivar à lua fosse coisa com que nada tinham a ver.

Mas têm. E o País sabe disso.

 



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