Pilatos

Manuel Gouveia

A ofensiva anti-laboral do grande capital prossegue. O seu objectivo é o de sempre: intensificar a exploração dos trabalhadores, aumentar os lucros dos capitalistas. Na Assistência em Escala (Handling), os trabalhadores enfrentam as consequências da privatização da ANA e da TAP, e da aplicação da directiva europeia liberalizadora (que um despacho de Sérgio Monteiro ainda levou mais longe). Nos Portos, o instrumento deixado pelo anterior governo para intensificar a precariedade e a exploração foi a bárbara lei do trabalho portuário, que permite e estimula a mais completa precariedade.

Em ambos os casos, o grande capital actua como uma tenaz de múltiplos braços para esmagar o preço da força de trabalho. Tudo é apresentado como inevitável, mas a verdade é que há quem tudo ganhe – as multinacionais (chamem-se Vinci, Ryanair, United, HNA ou chamem-se Yildrim, Maersk, MSC, PSA) – e há quem tudo perca – os actuais trabalhadores (que enfrentam o despedimento e a chantagem) e os futuros trabalhadores (a quem está reservado o trabalho mal pago, precário e prestado em condições desumanas).

Num e noutro sector, como em tantos outros, os recursos públicos, os equipamentos públicos e os trabalhadores portugueses, existem apenas para serem mastigados e cuspidos fora quando nada mais houver com que possam alimentar o grande capital. Os pseudo-reguladores engrossam as fileiras dos bem pagos lacaios, recebendo em milhares os muitos milhões que a sua cumplicidade dá a ganhar. A mesma cumplicidade expõe-se numa comunicação social que desinforma e mente sem vergonha.

O combate é tão desigual que convida à rendição. Mas os trabalhadores lutam, e lutam cada vez mais. Hoje, nos Portos e Aeroportos luta-se contra a precariedade e pelo futuro deste País. E não há espaço para neutralidades. O Governo finge-se morto, tentando lavar as suas mãos do problema. Mas como Pilatos, só expõe as cumplicidades (e contradições) em que se encontra enredado e a sua activa cumplicidade com o crime.

As armas que os anteriores governo colocaram nas mãos dos exploradores têm que lhes ser arrancadas. Da luta nascerá a força capaz de o conseguir.




Mais artigos de: Opinião

Défices

As mixórdias borbulham pela imprensa acerca das «sanções» que Bruxelas irá ou não aplicar a Portugal por «défice excessivo», procurando atarantar o País num aranzel que esconde coisas. A primeira, é que a Europa está já...

Porta(s) giratória

Ao longo dos anos, fomos constatando e combatendo essa espécie de porta giratória por onde proeminentes figuras da política de direita circulam entre cargos governativos e os conselhos de administração dos grupos monopolistas a quem essa mesma política serve. Altos dirigentes,...

Postulados de Rosas

O PCP é ciclicamente acusado de sectarismo e de postura intolerante contra outros partidos da «esquerda»; geralmente essa acusação varia na razão proporcional directa do anticomunismo, seja ele de direita ou aparentemente de esquerda, e não necessita de prova. Constitui...

Das coisas concretas do Estado

Nas últimas semanas vieram de novo à liça as teses, velhas de séculos mas que em cada curva da história alguns procuram apresentar como modernas e inovadoras, do «Estado Mínimo», do «Menos Estado – Melhor Estado», do «Estado imparcial perante as empresas», do «Estado menos pesado e mais moderno», do «Estado menos intervencionista e mais regulador».

Vitória, a história repete-se?

A semana da celebração do 71.º aniversário da Vitória sobre o nazi-fascismo foi a escolhida pela NATO para a activação, dia 12, do sistema antimíssil instalado na Roménia, na base de Devesel. No dia seguinte foi lançada a primeira pedra do sistema...