Vitória, a história repete-se?

Luís Carapinha

O delírio belicoso está em rédea livre

A semana da celebração do 71.º aniversário da Vitória sobre o nazi-fascismo foi a escolhida pela NATO para a activação, dia 12, do sistema antimíssil instalado na Roménia, na base de Devesel. No dia seguinte foi lançada a primeira pedra do sistema análogo na Polónia, a 200 quilómetros do enclave russo de Kaliningrado. As duas unidades integram o projecto global de escudo antimíssil desenvolvido pelos EUA, visando aniquilar a capacidade nuclear dissuasora da Rússia e da China, o que permitiria ao imperialismo poder desferir impunemente um ataque demolidor. O projecto específico existe, designado Ataque Global Imediato. Quanto ao escudo, os EUA prosseguem a ritmo acelerado o seu alargamento terrestre e marítimo. Washington anunciou planos para a Coreia do Sul com o argumento da putativa ameaça nuclear da Coreia do Norte, da mesma forma que no caso europeu continua descabidamente a invocar o perigo nuclear do Irão. Realizam-se testes da vertente aérea e o Pentágono planeia a sua expansão ao cosmos – os EUA recusam a proposta sino-russa de um tratado contra a militarização do espaço.

 

O frenesim belicista não se limita ao escudo antímissil. Em toda a frente Leste e vizinhança da Federação Russa vive-se um estado de crescente alvoroço militar. O novo comandante das tropas da NATO na Europa, general Skaparoti, promete prosseguir a sanha do seu antecessor, Breedlove, brandindo a ameaça russa para sugerir a deslocação no Leste de mais uma brigada blindada e o envio de armamento sofisticado ao regime nacionalista fantoche, liberal-fascista de Kiev. Só em Maio a NATO realiza exercícios militares em três antigas repúblicas soviéticas, Estónia, Geórgia e Moldávia. No mar Negro, tornou-se praticamente permanente a presença de vasos de guerra de países da NATO não ribeirinhos. O contingente de forças de intervenção rápida da Aliança deverá aumentar para 30 mil militares. Não obstante e como o delírio belicoso está em rédea livre, o comandante das tropas terrestres dos EUA na Europa, general Hodges, advogou este sábado um Schengen militar para ultrapassar as barreiras que tornam pouco célere o livre movimento de tropas. Não fosse o caso muito sério, teria a sua piada, agora que o Schengen civil da UE e a livre circulação de pessoas vão sendo abolidos, à pala do combate ao terrorismo ou no seio de dantescas operações de confinamento em centros de detenção e deportação dos refugiados das guerras do imperialismo.

Se a Rússia é o quebra-cabeças geopolítico e incontornável «espaço vital», a China é o grande adversário estratégico. Em 2015, os dois países assinalaram conjuntamente o significado histórico da Vitória de 1945.

Um relatório do Pentágono, conhecido há dias, insiste na ameaça militar chinesa. A presença norte-americana está a agravar as tensões no já encrespado Mar do Sul da China. A Casa Branca engendrou o acordo transpacífico contra Pequim, e prossegue com a UE a negociação secreta do TTIP. Obama voltou a ser sobranceiramente explícito na afirmação da excepcionalidade dos EUA, decretando no início do mês que é aos EUA que cabe ditar as regras do comércio mundial. A história mostra a que conduziram semelhantes megalómanas aspirações hegemónicas na era do imperialismo, em plena crise estrutural capitalista. Em Moscovo foi lembrado o papel decisivo da União Soviética na derrota do fascismo. No ano em que se assinala o 75.º aniversário do ataque de Hitler contra a URSS, foram mais os muitos milhões de russos que celebraram a Vitória. Contra os desígnios da cavalgada reaccionária, a história permanece viva.



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