Comunista não entra
O jornal i noticiava, no dia 12, a abertura das jornadas parlamentares do PCP no dia anterior com uma pequena caixa de uma página onde dava o mesmo destaque ao artigo do Avante! sobre a nova rubrica de comentário político da TVI. Vários comentários feitos nas redes sociais depois, a edição do dia seguinte do mesmo jornal dedicou duas páginas e o editorial a um facto de que já aqui falámos várias vezes: há comentadores com espaços fixos nas televisões de todos os partidos menos do PCP.
«Porque é que o PCP não tem um espaço de opinião individual na televisão?» era a questão que, para o i, importava ver respondida. E lá foram falar com politólogos, jornalistas, professores universitários e até ex-membros do PCP. Falaram com muita gente para perceber o que pode explicar este afastamento dos comunistas dos espaços de opinião, mas não foram capazes de falar com quem é excluído destes espaços, o PCP.
E a resposta à questão que se impunha veio no editorial onde Vítor Rainho nos explica que o discurso do Bloco atrai mais audiências (que, como se sabe, é a unidade de medida para a pluralidade de opiniões do povo português) e que os militantes comunistas são «obrigados a recolherem-se na verdade oficial da Soeiro Pereira Gomes». A culpa da discriminação do PCP é do PCP, portanto. Lá para o fim acaba por dizer que «o Bloco percebe muito mais de marketing do que o PC».
Ficámos a saber que um comentador que seja militante do PCP não dá audiências. É no mínimo curioso que o jornal i consiga dizer isso quando não há registo das audiências das rubricas de comentário que comunistas mantêm nas televisões, até porque... não há nenhuma! Sobre as observações à «verdade oficial» dos militantes do PCP, impõe-se recordar o que aquele que mais tempo ocupou um desses espaços – e que hoje é Presidente da República – disse a propósito do seu papel: mesmo quando não parecia, ele estava lá para ajudar o PSD. Já a referência ao marketing é muito reveladora. Para Rainho, ou para os donos e para os capatazes dos órgãos de comunicação social, a política é mais embalagem que conteúdo. Mas se o Bloco, após as eleições legislativas, passou a usar a palavra de ordem da CDU – soluções para o País –, o problema parece estar menos no que se diz e mais em quem o diz.
O editorial do i podia-se reduzir a uma curta tese: a opinião do PCP vende menos e portanto não interessa. Mas esconde a realidade que explica muito do que está em causa, em que são noticiados possíveis envolvimentos de dirigentes do Partido Comunista nos «papéis do Panamá», sem dizer que é o chinês (RTP, Telejornal); em que a abertura das jornadas parlamentares do PCP não existe (SIC, Primeiro Jornal e Jornal da Noite); em que se diz que a reacção do PSD a uma contratação pelo Governo é feita à margem das jornadas parlamentares do PCP (Antena 1); em que se mente, dizendo que os deputados do PCP aplaudiram Marcelo no Parlamento Europeu (e esta vale para todos).
O que o porta-voz de serviço do anticomunismo nos media na verdade nos quer dizer é isto: bastava dobrarem a espinha para vos recebermos de braços abertos nos espaços de opinião. Pelo menos em parte (e provavelmente sem o querer reconhecer) disse uma verdade.