Aqui anda marosca

Jorge Cordeiro

Com a pre­venção re­co­men­dada pela pro­ver­bial sa­be­doria po­pular que nos avisa que, quando a far­tura ou a es­mola é muita, deve o pobre des­con­fiar, olhemos para o cha­mado «Pa­namá Pa­pers». Desde logo para re­gistar a sú­bita in­qui­e­tação que as­solou os cen­tros de pro­dução me­diá­tica quanto à apa­rente des­co­berta da exis­tência de offshores. Co­nhe­cida que é a es­treita li­gação dos prin­ci­pais cen­tros de di­fusão no­ti­ciosa com o ca­pital trans­na­ci­onal que os co­manda e a com­pro­vada ca­pa­ci­dade de con­trolo de di­fusão à es­cala mun­dial das no­tí­cias que in­te­ressam ao im­pe­ri­a­lismo, olhe-se com a re­serva exi­gível para a ge­ne­ra­li­zada e or­ques­trada pro­jecção dada ao tema. Re­servas tão mais jus­ti­fi­cadas quanto co­nhe­cido que, por de­trás da cha­mada as­so­ci­ação in­ten­ci­onal de jor­na­lista de in­ves­ti­gação, está a mão fi­nan­ci­a­dora desse centro de de­linquência ca­pi­ta­lista co­nhe­cido como Fun­dação Soros ou a fa­mília Roc­ke­feller. Re­co­nhe­cendo que muitos se possam co­mover pe­rante tão sú­bita con­trição de tão gradas fi­guras, manda a pru­dência adoptar um pouco mais de exi­gência do que o sim­ples pa­pa­guear do que em doses mas­sivas os media nos inun­daram e al­guma re­flexão sobre os ob­jec­tivos, as agendas e os in­te­resses po­lí­ticos que lhes possam estar as­so­ci­ados.

Tanto mais que da lei­tura deste pro­cesso tem fi­cado de fora o que ele ex­pressa da ver­da­deira na­tu­reza do ca­pi­ta­lismo, de le­gi­ti­mação da sua exis­tência en­quanto ins­tru­mentos de «com­pe­ti­ti­vi­dade» ou «elas­ti­ci­dade» fiscal de países e «con­tri­buintes», de ten­ta­tiva de os ex­plicar não pelo que re­pre­sentam de peças es­sen­ciais e ine­rentes aos in­te­resses do ca­pital fi­nan­ceiro na ex­torsão de re­cursos aos povos mas sim pelo in­de­vido uso e abuso de al­guns mais ga­nan­ci­osos, de en­saio para novos e mais avan­çados passos em po­lí­ticas de ar­ti­cu­lação global fa­vo­rá­veis ao ca­pital trans­na­ci­onal.

Lendo o que al­guns por aí têm es­crito se­ríamos le­vados a con­cluir que esta coisa dos offshores é obra dos ini­migos do ca­pi­ta­lismo. Leia-se A. No­gueira Leite que em nome de um ca­pi­ta­lismo mais prós­pero e trans­pa­rente sen­tencia que «manter opa­ci­dade é fazer jogo dos que o querem des­truir». Se o leitor ainda não per­ce­bera fique pois sa­bendo que ainda se vai con­cluir que isto dos offshores tem a mão de co­mu­nistas.




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