Operação Venezuela

Luís Carapinha

Ope­ração contra a Ve­ne­zuela en­contra-se ao rubro

O quadro dos pro­cessos pro­gres­sistas e eman­ci­pa­dores la­tino-ame­ri­canos atra­vessa um mo­mento es­pe­ci­al­mente com­plexo e ad­verso. Con­tra­di­ções e de­bi­li­dades pró­prias de di­versa ordem con­jugam-se com o foco con­cen­trado do apro­fun­da­mento da crise ca­pi­ta­lista mun­dial sobre as suas eco­no­mias e, so­bre­tudo, a vi­ru­lenta re­acção or­ga­ni­zada do poder oli­gár­quico e das forças ali­nhadas com a in­ge­rência e sub­versão im­pe­ri­a­listas. Ávidos e in­certos do dia de amanhã, os ba­te­dores da re­vanche ne­o­li­beral pal­mi­lham o ter­reno, ar­re­me­tendo contra tudo o que cheire a di­reitos so­ciais e de­mo­crá­ticos, con­trolo e pro­pri­e­dade pú­blicas, in­de­pen­dência na­ci­onal e co­o­pe­ração re­gi­onal so­be­rana. Aí está o en­tre­guismo de Macri, na Ar­gen­tina, e a de­sa­brida ten­ta­tiva de de­sen­terrar o bo­lo­rento Con­senso de Washington. No Brasil, o golpe de es­tado em mo­vi­mento en­trou na fase crí­tica, dois anos vol­vidos da re­e­leição da pre­si­dente Dilma por 54 mi­lhões de bra­si­leiros. Quanto à Ve­ne­zuela, é uma peça cen­tral das ame­aças do Co­mando Sul do Pen­tá­gono e da ira de Washington. Re­ve­la­do­ra­mente, antes de vi­ajar para Cuba e Ar­gen­tina, Obama re­novou a ma­cabra ordem exe­cu­tiva que con­si­dera o país uma ameaça «in­comum e ex­tra­or­di­nária» para a se­gu­rança na­ci­onal e po­lí­tica ex­terna dos Es­tados Unidos. De Ca­racas e Quito soam alertas para o pe­rigo de um novo Plano Condor na Amé­rica La­tina. Lula aponta as ame­aças do fas­cismo.

Ao longo da his­tória, nos mo­mentos mais duros e azi­agos, a re­sis­tência e pro­ta­go­nismo das massas foram de­ter­mi­nantes para rasgar novos ho­ri­zontes e lo­grar a senda da jus­tiça e pro­gresso so­ciais. Cabe-o re­cordar em re­lação à Re­vo­lução Bo­li­va­riana, na se­mana em que se as­si­nala mais um ani­ver­sário da der­rota do golpe de 2002. Re­cu­emos 14 anos. O pro­cesso bo­li­va­riano havia ir­rom­pido há pouco mais de três anos, de­pois de um ro­tundo triunfo elei­toral, numa Amé­rica La­tina já em con­torção, em que apenas a re­sis­tência cu­bana de­sa­fiava a he­ge­monia de Washington e o diktat do FMI. Em pleno contra-ciclo re­vo­lu­ci­o­nário, após o fim da URSS. Quando Chávez foi de­tido e afas­tado de Mi­ra­flores por 47 horas ne­nhum dos ac­tuais pro­cessos pro­gres­sistas na Amé­rica La­tina – no Brasil, Uru­guai, Bo­lívia, Ni­ca­rágua, Equador, entre ou­tros – era re­a­li­dade. Não exis­tiam a ALBA, UNASUR, ou CELAC, nem a ca­deia no­ti­ciosa Te­lesur. Es­tava por que­brar a es­pinha da ALCA e só bem de­pois te­riam lugar os en­con­tros BRICS – UNASUR e China – CELAC. Os gol­pistas não ti­veram pejo em pi­so­tear a Cons­ti­tuição bo­li­va­riana e dis­solver a suas ins­ti­tui­ções, pa­ra­men­tados pela cú­pula ecle­siás­tica e sob o aplauso mentor de Wall Street, Bush e Aznar, e dos media de­mo­crá­ticos mun­diais. O le­van­ta­mento do povo açoi­tado pelo Ca­ra­cazo de 1989, fresco na me­mória e na carne, foi fun­da­mental para a re­vi­ra­volta de 13 de Abril. Nos quar­téis, os ofi­ciais com co­mando de tropas in­sur­giram-se. A união povo-forças ar­madas de­mons­trava o seu vigor. Cor­rendo contra o tempo, os gol­pistas ha­viam em­pos­sado Pedro Car­mona, que pre­sidia ao grande pa­tro­nato ve­ne­zu­e­lano. Consta que um as­sis­tente co­chi­chou, in­quieto, ao ou­vido do fan­toche: Pre­si­dente to­mámos o poder ou es­tamos cer­cados no Pa­lácio?

Desde então passou-se a dizer que não há 11 sem 13. Porém o ce­nário de golpe re­gressou, pe­ri­go­sa­mente, na onda da con­tínua guerra eco­nó­mica e afun­da­mento das co­ta­ções do pe­tróleo. A ope­ração contra a Ve­ne­zuela en­contra-se ao rubro. In­ten­si­ficou-se de­pois do de­sa­pa­re­ci­mento pre­coce de Chávez em 2013, con­fi­gu­rando um ce­nário de guerra total não con­ven­ci­onal, em que se pro­cura por todas as formas tornar o país in­go­ver­nável. A cam­panha dos media es­car­nece esta re­a­li­dade, vul­ga­riza as con­quistas po­pu­lares dos úl­timos 17 anos e corta o nexo his­tó­rico – e de classe – dos pro­blemas eco­nó­micos e so­ciais que fus­tigam o país. Urge des­mas­carar esta cam­panha. A hora é de so­li­da­ri­e­dade com os tra­ba­lha­dores e o povo ve­ne­zu­e­lanos e a luta das forças anti-im­pe­ri­a­listas em de­fesa da re­vo­lução bo­li­va­riana.

 



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