Fim de «estória»

Carlos Gonçalves

Desculpem a palavra «estória». Gosto das belas «Estórias abensonhadas» de Mia Couto e nada sei das polémicas da linguística, da semântica, dos usos e costumes da língua portuguesa, mas o facto é que, nos últimos dias de Cavaco em Belém, a comunicação social dominante empestou o ambiente com seu «lugar na história» e o «momento histórico» da saída e, francamente, sem querer ofender ninguém – para poder falar do evento da sua saída com a dignidade que não teve enquanto PR –, creio que a História de Portugal (com um H maiúsculo), entendida como resultante da luta e evolução deste povo e deste País, não registará Cavaco Silva.

De Cavaco ficam as «estórias» pequeninas (e com letra minúscula) e os intermináveis anos de lero-lero, de mentiras, gabarolices, broncas e reaccionarices para tentar travar a marcha da Humanidade. Não cabe aqui a resenha, mas que nunca se esqueçam os seus «ajudantes», barões e amigalhaços – Oliveira e Costa, Duarte Lima, Dias Loureiro e outros –, o seu serviço abnegado (!?) aos interesses estrangeiros, à «troika» e aos banqueiros, a sua guerra pela concentração da riqueza, contra os trabalhadores, o povo e o País, o seu anticomunismo tacanho contra o PCP, os trabalhadores, José Saramago, a cultura e a liberdade, o seu golpismo visceral contra o 25 de Abril e a Constituição, o seu autoritarismo intrínseco, na repressão dos utentes da Ponte 25 de Abril, e outros crimes impunes.

Cavaco saiu, mas ficaram os que se reclamam da sua herança.

O PR Rebelo de Sousa, um Cavaco «de corrida», com um «upgrade» de «animal mediático», cuja entrada em funções se expressa no show-off e ocultação «moderada» das suas reais intenções de, assim que possível, com um sorriso cínico, inverter o actual quadro político e repôr no poleiro toda a política de direita.

E Passos Coelho, doente pela derrota de Outubro, mas de novo líder do PSD e a «bombar» para «primeiro-ministro», como se a mentira crónica e a desfaçatez, dizendo tudo e o seu contrário, jurando o que nunca cumprirão, mistificando o seu programa de um novo roubo ao País, ocultassem que a sua «estória» é agora uma farsa repetitiva e sem futuro.

Vamos fechar esta «estória» e escrever os novos capítulos da História pátria, de democracia e socialismo.




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