Bruxelas e FMI promovem espoliação dos povos

A indústria das privatizações

A venda de pa­tri­mónio pú­blico a preços de saldo trans­formou-se numa lu­cra­tiva in­dús­tria para um pe­queno cír­culo de em­presas ju­rí­dicas, de con­sul­ta­doria e fi­nan­ceiras.

Os es­tados per­deram re­ceitas e em­presas es­tra­té­gicas

O Trans­na­ti­onal Ins­ti­tute (TNI), centro de es­tudos se­diado na Ho­landa, já tinha acu­sado a União Eu­ro­peia e o Fundo Mo­ne­tário In­ter­na­ci­onal de uti­li­zarem a crise eco­nó­mica para impor pro­gramas de pri­va­ti­zação aos países mais en­di­vi­dados. Tal foi a con­clusão do es­tudo pu­bli­cado em 2013.

Três anos de­pois um novo tra­balho ana­lisa as con­sequên­cias desses pro­cessos, exa­mina os ar­gu­mentos que os jus­ti­fi­caram e re­vela quais os grandes be­ne­fi­ciá­rios da venda do pa­tri­mónio pú­blico.

O es­tudo, pu­bli­cado dia 17 em Ames­terdão, in­ti­tula-se «A In­dús­tria da Pri­va­ti­zação na Eu­ropa» e con­clui que a Co­missão Eu­ro­peia, Banco Cen­tral Eu­ropeu e o Fundo Mo­ne­tário In­ter­na­ci­onal fa­vo­recem ob­jec­ti­va­mente um pe­queno cír­culo de mul­ti­na­ci­o­nais na área da con­sul­ta­doria e da fi­nança que surgem sis­te­ma­ti­ca­mente li­gadas a estes pro­cessos.

Para estas ins­ti­tui­ções, as pri­va­ti­za­ções de ser­viços pú­blicos e em­presas es­ta­tais são a pa­na­ceia para as di­fi­cul­dades fi­nan­ceiras dos es­tados-mem­bros. Além disso alegam que a ti­tu­la­ri­dade pri­vada me­lhora a ren­ta­bi­li­dade e com­pe­ti­ti­vi­dade das em­presas, be­ne­fi­ci­ando os ci­da­dãos com preços mais baixos e me­lhores ser­viços.

Sol Trumbo Vila e Matthijs Pe­ters, au­tores do es­tudo do TNI, con­tra­põem que a mai­oria das pri­va­ti­za­ções re­a­li­zadas nos úl­timos anos se tra­du­ziram numa re­dução de re­ceitas para o Es­tado, no au­mento de casos de cor­rupção e em ser­viços mais caros e de pior qua­li­dade.

Por exemplo, nos 34 países da OCDE, o preço médio da energia dos for­ne­ce­dores pri­vados é 32,1 por cento mais ele­vado do que o pra­ti­cado pelas em­presas pú­blicas.

Ao mesmo tempo, apontam grandes perdas em ma­téria de sa­lá­rios, em­pregos e re­dução de di­reitos la­bo­rais, que de­cor­reram das pri­va­ti­za­ções e agra­varam ainda mais a crise eco­nó­mica.

Banca sempre a ga­nhar

O re­la­tório de 2013 do TNI apurou que entre Ou­tubro de 2008 e Ou­tubro de 2011, a Co­missão Eu­ro­peia au­to­rizou ajudas es­ta­tais às en­ti­dades fi­nan­ceiras no valor 4,5 bi­liões de euros (o equi­va­lente a 37 por cento do PIB da UE).

Para o sal­va­mento da banca, os go­vernos con­traíram um vo­lume de dí­vida sem pre­ce­dentes, co­lo­cando as fi­nanças pú­blicas à beira da rup­tura, como acon­teceu em Por­tugal, Grécia, Ir­landa, Chipre, Es­panha e Itália.

Ao ar­repio do Tra­tado de Fun­ci­o­na­mento da União Eu­ro­peia, no qual se es­ta­be­lece que a Co­missão Eu­ro­peia deve ser neu­tral quanto ao re­gime de pro­pri­e­dade pú­blica ou pri­vada das em­presas, a «as­sis­tência fi­nan­ceira» a estes países foi con­di­ci­o­nada à apli­cação não só de se­veras me­didas de aus­te­ri­dade mas também de am­plos pro­gramas de pri­va­ti­zação.

Ao sector fi­nan­ceiro, que já tinha be­ne­fi­ciado de enormes ajudas do Es­tado, é ofe­re­cida uma opor­tu­ni­dade de re­a­lizar lu­cros fa­bu­losos, com­prando a preço de saldo em­presas pú­blicas ren­tá­veis.

Os in­ves­ti­ga­dores iden­ti­fi­caram um «modus ope­randi», em que ao lado de grandes bancos eu­ro­peus, como é exemplo o Deutsche Bank, se en­con­tram as «quatro grandes» em­presas de au­di­toria e con­sul­toria (De­loitte, Pri­cewa­terhou­se­Co­o­pers, KPMG e Ernst & Young), bem como a La­zard e a Roths­child, que são as duas mai­ores em­presas de as­ses­soria fi­nan­ceira para as pri­va­ti­za­ções na Eu­ropa.

A as­ses­soria ju­rí­dica é por sua vez pres­tada por al­guns dos mai­ores es­cri­tó­rios de ad­vo­cacia do mundo, com des­taque para os bri­tâ­nicos Fresh­fi­elds Bruckhaus De­ringer, Clif­ford Chance, Allen & Overy e Norton Rose Full­bright, ou a em­presa norte-ame­ri­cana She­arman & Ster­ling.

A pro­mis­cui­dade de in­te­resses vai ao ponto de os ava­li­a­dores serem ou ser­virem os com­pra­dores, como acon­teceu na Grécia, Es­panha ou Por­tugal, de­sig­na­da­mente na venda da EDP e REN.

 

Vendas ao des­ba­rato

Pres­si­o­nados a vender pa­tri­mónio o mais ra­pi­da­mente pos­sível, os go­vernos aceitam ne­gó­cios rui­nosos para o in­te­resse pú­blico.

Os exem­plos mais fla­grantes ve­ri­ficam-se na Grécia, mas o es­tudo do TNI aponta igual­mente vendas ao des­ba­rato na Ir­landa, Es­panha e Por­tugal, entre ou­tros.

Em 2013, o go­verno grego ali­enou a sua par­ti­ci­pação de 33 por cento na lu­cra­tiva em­presa de apostas (OPAP). As ac­ções da OPAP es­tavam co­tadas na bolsa de Atenas em 9,13 euros. No en­tanto, as au­to­ri­dades gregas, as­ses­so­radas pelo Deutsche Bank, acei­taram vender a sua par­ti­ci­pação a 6,13 euros.

O caso ter­minou com a des­ti­tuição de Ste­lios Sta­vridis, res­pon­sável pela agência de pri­va­ti­za­ções, que horas de­pois de con­cluído o ne­gócio vi­a­java para uma ilha grega a bordo do avião pri­vado de Di­mi­tris Me­lis­sa­nidis, pro­pri­e­tário do fundo que com­prou a par­ti­ci­pação do Es­tado na OPAP.

Outra venda es­can­da­losa en­volve 14 ae­ro­portos de um total de 37 exis­tentes na Grécia. As infra-es­tru­turas foram se­lec­ci­o­nadas em Julho pas­sado, logo após o go­verno ter acor­dado um novo res­gate com a troika. Têm a par­ti­cu­la­ri­dade de serem os únicos equi­pa­mentos ae­ro­por­tuá­rios do país, cuja ex­plo­ração gera re­ceitas lí­quidas para o Es­tado. Todos os ou­tros são de­fi­ci­tá­rios e o seu fun­ci­o­na­mento, in­dis­pen­sável para a li­gação com as ilhas, terá de ser fi­nan­ciado pelo erário pú­blico.

A con­cessão foi atri­buída à em­presa alemã Fra­port por um prazo de 50 anos. O ne­gócio teve a as­ses­soria da Lufthansa Con­sul­ting GmbH, fi­lial da com­pa­nhia aérea alemã, que também é ac­ci­o­nista da Fra­port. Esta úl­tima é ainda de­tida em 51 por cento pelo Es­tado ger­mâ­nico. O con­flito de in­te­resses não podia ser mais evi­dente.

Na Ir­landa, o go­verno foi pres­si­o­nado a vender o lu­cra­tivo for­ne­cedor de energia Bord Gais Energy (BGE). A ope­ração con­cre­tizou-se em Junho de 2014 a troco de um en­caixe lí­quido para o Es­tado de mil mi­lhões de euros, muito abaixo do valor real da em­presa. Só uma cen­tral eléc­trica inau­gu­rada em 2010 tinha cus­tado 400 mi­lhões de euros.

Em Es­panha, o re­la­tório aponta a venda de 49 por cento da em­presa ae­ro­por­tuária AENA. Em Fe­ve­reiro do ano pas­sado, as ac­ções foram co­lo­cadas em bolsa ao preço uni­tário de 58 euros. No mesmo dia, a co­tação subiu para 70 euros e dois meses de­pois al­cançou o nível ac­tual de cem euros por acção. O Es­tado en­caixou quatro mil mi­lhões de euros, en­quanto os pri­vados ti­veram um lucro ime­diato de três mil mi­lhões de euros. Par­ti­cu­lar­mente be­ne­fi­ci­ados foram os bancos que co­or­de­naram a ope­ração de oferta pú­blica de venda, aos quais foi con­ce­dido o di­reito de com­prar dez por cento das ac­ções ao preço de emissão.

O re­la­tório re­fere, entre ou­tros casos, a pri­va­ti­zação da EDP e da REN em Por­tugal, como exem­plos de claro con­flito de in­te­resses. Em ambas as pri­va­ti­za­ções o Banco Es­pí­rito Santo de In­ves­ti­mento foi con­tra­tado como ava­li­ador pelo Es­tado por­tu­guês. Pouco de­pois a mesma en­ti­dade foi as­ses­sora fi­nan­ceira das duas com­pa­nhias chi­nesas que com­praram os ac­tivos.

O TNI cita o pa­recer do Tri­bunal de Contas que cri­ticou o papel duplo do BES na pri­va­ti­zação, es­ti­mando que o Es­tado terá per­dido 1600 mi­lhões de euros com a venda da EDP e cerca de 400 mi­lhões de euros no caso da REN.




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