De Lesbos com ardor… (II)
Aos que sobrevivem à precária travessia do mar Egeu – e cuja travessia segura por ferry custaria apenas cinco euros – sobram ainda muitos milhares de quilómetros até ao destino que almejam.
À chegada a Lesbos são direccionados para diversos campos de recepção, ou campos intermédios, num percurso de até 50 quilómetros com destino ao campo de Moria, um chamado «hotspot» da política migratória da UE, construído inicialmente como um campo de detenção – a profusão de cercas e arame farpado demonstra bem a que fim se destinava. Na proximidade do desembarque, as equipas no terreno, nomeadamente dos serviços sociais gregos e ONG tratam de uma primeira recepção, fornecendo uma muda de roupa e calçado e uma primeira refeição quente (normalmente chegam molhados e com frio ou mesmo em hipotermia). Com momentos em que mais de duas mil pessoas chegam por dia àquela ilha, rapidamente se atinge a capacidade limite das infra-estruturas, criando difíceis situações de recepção, degradando e precarizando as condições de acolhimento, agravadas pelos procedimentos de registo.
Em Moria, está montado uma grande estrutura onde se integram membros da polícia grega, da FRONTEX e agentes da UNHCR, da EASO, destinada à triagem, identificação e recolha de dados dos refugiados. Cada pessoa recebe uma senha e terá que esperar, no exterior do centro, em condições deploráveis, pela sua vez. À chamada, tudo é inspeccionado com minucioso detalhe por equipas de técnicos especializados na identificação de documentos falsos e no despiste da nacionalidade declarada. No final, dados dactilográficos recolhidos – leia-se impressões digitais – imediatamente enviadas para o registo europeu, uma fotografia tirada e numa folha A4 o seu destino: autorização de permanência na Grécia de seis meses (sírios), 30 dias (afegãos e iraquianos) ou «guia de marcha» para os restantes. Uma descriminação que se sente bem no terreno, geradora de tensões e conflitos entre migrantes.
Das ilhas gregas seguem de ferry para Atenas, de onde partirão por autocarro para Idomeni na fronteira com a Macedónia, daí percorrendo a rota dos Balcãs até chegar à Europa Central. Aquando da visita, foi notória a consequência das políticas de encerramento de fronteiras promovida pela UE, pelo condicionamento e previsível encerramento da fronteira da Macedónia. A poucos quilómetros da fronteira, a concentração de cerca de dez mil refugiados em autocarros parados numa estação de serviço, e a retenção ao longo do percurso de muitos mais milhares de refugiados, também em autocarros, transformando uma viagem de oito horas num suplício de mais de três dias, em condições de inimaginável degradação da dignidade humana, de deficientes condições de higiene e acomodação.
Foi no continente que notámos mais desorganização, mais desarticulação entre os intervenientes no terreno (serviços sociais do Estado, ONG, já sem a presença das agências da União) e uma incapacidade para dar a adequada resposta. As situações mais críticas por aqueles dias verificavam-se no porto do Pireu, onde uma antiga estação de embarque oferecia tecto a mais de 200 pessoas ocupando o chão onde e como podiam. A alguns quilómetros de distância, em instalações que antes serviram os jogos olímpicos, um pavilhão em clara ruptura de capacidade, onde se apinhavam mais de 1500 refugiados, o dobro do previsto. Nestas instalações havia já pessoas a dormir na rua. Duas tendas no exterior, sem qualquer tipo de aquecimento onde os presentes se aqueciam como podiam enrolados em cobertores, servem para a separação de nacionalidades, acomodando os migrantes do Norte de África. A pergunta comum a que não tínhamos como responder: quando podemos ir para a Macedónia?
Cruelmente comum, o elevado número de crianças presentes em qualquer dos locais visitados. Não obstante o sofrimento, o drama a que estão sujeitas, regista-se, surpreendente, a capacidade que têm de, na pior das adversidades, expandirem sorrisos cristalinos nas brincadeiras que inventam.
Sorrisos que não movem os que na UE definem e impõem criminosas e militarizadas respostas a um drama humanitário, como as fechadas pelo Conselho Europeu a semana passada,(1) que assentam na expulsão e interrupção do fluxo migratório, em estreita articulação com a Turquia. A intervenção da NATO no mar Egeu, em colaboração com a FRONTEX, aplaudida pelo Conselho, de que poderão resultar milhares de vítimas, constitui mais uma afronta desta UE ao direito internacional e aos direitos humanos, que a história tratará de condenar.
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(1)Vide Comunicado da Comissão Política do Comité Central do PCP de 22 de Fevereiro