Coro dos inconformados
Quando Assunção Cristas, irrevogável sucessora de Portas no CDS, veio bradar de entusiasmo, aquando das primeiras ameaças de Bruxelas perante o Orçamento do Estado, que se iria passar «do sonho rosa avermelhado para um estado de pesadelo», melhor se percebeu o mote do arsenal argumentativo dos que engrossaram a plêiade dos que não conseguem reprimir, sempre que olham para a actual situação, aquele rosnar de zanga. Aquilo que os move não é o que o Orçamento representa, as suas contradições, insuficiências e limitações, mas sim a percepção de que a sua agenda de destruição e empobrecimento, com a cartilha determinista que a acompanha, está a ser questionada. Quando Cristas regurgita eufórica com as ameaças da Comissão Europeia o que a move é aquela esperança de ver quem, ali, a ajude a repor o cenário de pesadelo e infernização da vida dos portugueses que ela e os seus impuseram ao País.
As vozes da matilha política que se ergueram contra o Orçamento estão afinadas. Quer as dos mais empedernidos direitistas quer as que, sob uma adocicante retórica, se exprimem com roupagem de esquerda por incorrigíveis federalistas. Quanto aos primeiros, os Monteiro ou o Sousas Tavares cá do burgo, aí os temos esgrimindo contra os que na defesa do interesse nacional criticam a ingerência, acusando-os de agitar o «inimigo externo» para esconder a sua inconfessada aliança com este. Pouco haverá a acrescentar que não a tolerante compreensão com os que, inconformados com o rumo da vida política, lá vão escrevendo o que os centros do capital transnacional ou as agências de rating lhes recomendam. Olhando para o outro lado, aí temos Rui Tavares a proclamar inflamado, naquele seu labiríntico raciocínio, a sua alegada razão quanto a ser «possível fazer um orçamento de esquerda sem sair do euro nem romper com a UE». Fá-lo, sobretudo, para chegar onde queria, ou seja, verberar o que chama de «esquerda euro-céptica» que quando carrega «na retórica contra os inimigos externos pretende que não notemos que deixou cair as suas promessas de rompimento com a UE e mesmo a saída do euro». A tese de Tavares é uma desgraça: não só é manifesto exagero ver no Orçamento, um orçamento de esquerda, como é sobretudo cegueira não querer ver que para lá das opções do Governo são as imposições externas que ampliam as suas limitações.