Soros contra China

Luís Carapinha

Economia chinesa cresce a mais do dobro da taxa dos EUA

George Soros investiu contra a China no Fórum Económico Mundial de Davos, reunido em Janeiro na estância suíça. Pegando num tema já viral na agenda mediática corporativa global, o agiota bilionário declarou que o cenário de «aterragem violenta é praticamente inevitável» [para a economia chinesa]. Reputado mega-especulador sem fronteiras, venerado pelo mainstream como investidor de sucesso e filantropo – ainda em Dezembro endossou mais um donativo de seis milhões de dólares à campanha presidencial de Hillary Clinton –, Soros encontrou no sobre-endividamento da China a razão profunda da onda deflacionária que ameaça a economia mundial. Depois foi a vez de Christine Lagarde pegar na estafeta da campanha anti-China. Para a directora-geral do FMI, cuja pretensão a um novo mandato, na obscuridade dos bastidores da alta finança mundial, é assombrada pelas inquirições da Justiça francesa e o fantasma do destino pouco abonatório do seu predecessor, Strauss-Kahn, a China ainda poderá evitar uma aterragem violenta se reformar as empresas estatais e intensificar as reformas de mercado. Lagarde e o grande capital querem que Pequim privatize os sectores estratégicos da economia e entregue o yuan à livre flutuação, libertando os instrumentos da política cambial e monetária da alçada do governo e banco centrais chineses. De caminho, difunde-se a falácia de que a desaceleração chinesa (cuja economia cresce a mais do dobro da taxa dos EUA) é a raiz da nova espiral da crise económica global. À medida que continua a subir a turbulência nos mercados financeiros e o edifício monstruoso de activos tóxicos reerguido depois de 2008 ameaça desabar, até a FED dos EUA, sacudindo a água do capote, aproveita para justificar os dilemas da política monetária e decisões sobre as taxas de juro de referência com os ventos nefastos que sopram da China...

Em Pequim a intervenção de Soros não passou despercebida. Sem mencionar o nome do fundador da Open Society, o primeiro-ministro da China, Le Keqiang, qualificou de «absurdas» as alegações contra a economia chinesa. Mais incisivo, um artigo de opinião de Mei Xinyu, investigador ligado ao Ministério do Comércio da China, publicado no Diário do Povo, acusou Soros de declarar «guerra à China», aludindo à «pressão especulativa» dirigida contra as moedas asiáticas, principalmente o yuan (People's Daily Online, 27.01.2016).

A proeminência e preeminência de personagens do calibre de Soros na cúspide do sistema dominante são reveladoras do tempo volátil que vivemos e da própria estrutura e dinâmica do capitalismo e da sua crise. Certamente, os usurários da grande finança não enjeitarão qualquer oportunidade para pescar em águas turvas e continuar a amassar novas fortunas com a especulação cambial e bolsista. Mas a investida contra a China da Wall Street e as pressões desestabilizadoras para socavar a credibilidade da sua economia e do yuan são essencialmente elementos da estratégia que identifica na China um adversário vital.

As contradições da transição económica chinesa, rumo a uma economia ancorada no vasto mercado interno, com menos peso das exportações, são assumidas pela direcção chinesa. O grande capital transnacional, acossado pela contracção das taxas de lucro e a dívida insanável dos EUA, tudo arriscará para tirar partido da maior exposição chinesa aos factores perniciosos da integração na economia mundial ainda sob hegemonia do imperialismo. Convém estar atento, mas também não confundir a nuvem com Juno. É a propriedade pública que mantém o alto comando da economia chinesa, inclusive, conduzindo o sector e investimento privados. O yuan já é a 3.ª moeda de reserva internacional e a China o maior credor mundial, desempenhando um papel central na profunda rearrumação de forças que reflecte a trajectória de decadência da Tríade imperialista no mundo.

O pivot para a Ásia do Pentágono e a política de pressão e cerco à China são no fundo um perigoso sinal de desespero e medo.




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