A luta, sempre

Henrique Custódio

«Eu não ia investir numa empresa pública», sentenciou David Nieeleman, o brasileiro das jogatanas aéreas que adquiriu de mão-beijada a TAP, que o ex-primeiro-ministro Passos Coelho lhe passou – em estertor demissionário – por tuta e meia, num negócio de vão-de-escada acolitado por Humberto Pedrosa e o seu grupo Barraqueiro, para fingir que «o capital» do negócio era «português» (este Pedrosa, da Barraqueiro, vem de uma chafarica rodoviária de uma família de tendeiros que ligava Torres Vedras a Lisboa no fascismo, que escaparia à nacionalização dos transportes rodoviários e acabaria a tornar-se uma «grande empresa» com a privatização a retalho da Rodoviária Nacional).

A sentença de Nieeleman foi produzida no anúncio da «reversão da TAP» anunciada pelo Governo de António Costa onde, aparentemente, o Estado continua a ter 50 por cento do capital da empresa, direito de veto (não se sabe onde, em quê, nem como), mas o poder decisório continuará na mão do «consórcio».

A confissão explicitada na frase é eloquente: o serviço público é não apenas recusado, como também olhado com desprezo pelos «investidores privados» – sempre e só disponíveis para o lucro, pois claro, e quanto mais fácil, melhor.

Há comentadores que «vêem» contragostos nas expressões, quer de Nieeleman, quer de Pedrosa, na assumpção desta «reversão», há também os que, primeiro, enumeravam argumentos à volta dos interesses estratégicos do País concentrados na «companhia de bandeira» que é a TAP e, de seguida, já condescendem nas «vantagens» que veriam na reversão apresentada (como se verifica na Associação Peço a Palavra, liderada pelo cineasta António Pedro Vasconcelos), outros ainda, como a Associação Comercial do Porto (ACP), olham para os próprios interesses e acusam este acordo de ser uma «parceria público-privada» de «consequências» preocupantes para o Norte e para o País, acrescentando que, com ele, «a TAP vai continuar a desinvestir no Porto a favor de uma ainda maior concentração de operações em Lisboa».

Quanto à Associação Empresarial de Portugal (AEP) considera que o novo acordo realizado pelo Governo de António Costa é uma decisão «corajosa mas arriscada», centrando o risco nas más experiências vividas «nas parcerias público-privadas». Cautelosos, como lhes está na alma.

Seja como for, circula um indisfarçável desconforto com esta «reversão», que renacionaliza a TAP mas deixa o comando nas mãos do «consórcio»

O PCP é claro: defende a reversão do processo de privatização da transportadora aérea nacional e a «recuperação integral» do seu controlo pelo Estado português. Considera que este negócio foi a «salvação da privatização» da TAP, promete iniciativas legislativas na Assembleia da República e apela à luta dos trabalhadores pelo controle público da empresa.

A luta é sempre o caminho.

 



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