Repressão criminosa sobre curdos dificulta paz na região

Turquia soma mais guerra à guerra

As Na­ções Unidas exigem a in­ves­ti­gação do pre­su­mível as­sas­si­nato de civis no Su­deste da Tur­quia, país que se con­so­lida como agente de de­ses­ta­bi­li­zação im­pe­ri­a­lista na re­gião, em par­ti­cular na Síria.

«Va­lores acu­mu­lados pela hu­ma­ni­dade estão a ser des­truídos»

Através do Alto Co­mis­sário para os Di­reitos Hu­manos, a ONU qua­li­ficou de «ex­tre­ma­mente cho­cante» um vídeo, di­fun­dido através de uma rede so­cial, que mostra civis a serem al­ve­jados por um veí­culo blin­dado das forças ar­madas de An­cara en­quanto re­co­lhiam corpos. As ima­gens terão sido cap­tadas pelo jor­na­lista turco Refik Tekin, há cerca de duas se­manas, na ci­dade de Cizre, pra­ti­ca­mente si­tuada no vér­tice da fron­teira com a Síria e o Iraque.

Um homem e uma mu­lher que apa­recem nas ima­gens trans­portam ban­deiras brancas per­fei­ta­mente vi­sí­veis, mas nem isso os sal­va­guardou dos dis­paros dos mi­li­tares. O re­pórter que re­gistou o acon­te­ci­mento ficou fe­rido no ataque e en­contra-se sob vi­gi­lância num hos­pital es­tatal pró­ximo. É acu­sado pelo go­ver­nador e pelo pro­cu­rador-geral de «in­te­grar um grupo ter­ro­rista se­pa­ra­tista», que para a Tur­quia quer dizer o Par­tido dos Tra­ba­lha­dores do Cur­distão (PKK).

«Filmar uma atro­ci­dade não é um de­lito, mas dis­parar contra civis de­sar­mados sem dú­vida que o é. É es­sen­cial uma in­ves­ti­gação exaus­tiva, in­de­pen­dente e im­par­cial deste e de ou­tros acon­te­ci­mentos em que civis foram mortos ou fe­ridos», re­clamou Zeid al-Hus­sein, para quem «o sur­gi­mento deste vídeo co­loca im­por­tantes in­ter­ro­ga­ções sobre o que está exac­ta­mente a acon­tecer em Cizre e em ou­tras lo­ca­li­dades do Su­deste da Tur­quia, que as au­to­ri­dades turcas de­cla­raram iso­ladas do mundo ex­te­rior», disse o Alto Co­mis­sário, de acordo com a Lusa.

Zeid al-Hus­sein re­fere-se à in­tensa cam­panha re­pres­siva que a Tur­quia leva a cabo nas re­giões de mai­oria curda no seu ter­ri­tório e no vi­zinho Iraque, ope­ração de larga es­cala na qual se in­te­gram a de­cla­ração do es­tado de sítio em grandes cen­tros ur­banos, no­me­a­da­mente na ci­dade de Diyar­bakir, vagas de pri­sões e vi­o­lência contra ma­ni­fes­ta­ções, cercos e bom­bar­de­a­mentos in­dis­cri­mi­nados du­rante se­manas, caso do que su­cede em Cizre.

Si­tu­ação alar­mante

A cam­panha tem sido no­ti­ciada a custo pelos media turcos, com vá­rios jor­na­listas a pa­garem um ele­vado preço por cum­prirem a obri­gação de in­formar. O facto foi, aliás, no­tado pelo res­pon­sável da ONU, que nas já ci­tadas de­cla­ra­ções se ma­ni­festa pre­o­cu­pado com o «nú­mero alar­mante de jor­na­listas con­de­nados ou que aguardam jul­ga­mento, o que faz ques­ti­onar a li­ber­dade de ex­pressão no país».

Pa­ra­le­la­mente, um grupo de de­pu­tados do Par­tido De­mo­crá­tico do Povo (HDP), pró-curdo, pros­segue uma greve de fome em pro­testo contra as ini­ci­a­tivas do exe­cu­tivo turco nas pro­vín­cias mai­o­ri­ta­ri­a­mente ha­bi­tadas por curdos.

Em en­tre­vista à agência de no­tí­cias russa Sputnik, um dos eleitos re­latou que a as­sis­tência mé­dica está a ser im­pe­dida de en­trar em Cizre pelos mi­li­tares que cercam a ci­dade. O ar­gu­mento das au­to­ri­dades cas­trenses é a pro­tecção dos clí­nicos, os quais, re­pete o go­verno turco, terão es­tado sob fogo dos in­sur­rectos. Algo que o de­pu­tado do HDP ga­rante ser falso.

«Vi­vemos num tempo ter­rível em que os va­lores acu­mu­lados pela hu­ma­ni­dade ao longo da his­tória estão a ser des­truídos», la­mentou o par­la­mentar. Osman Bay­demir contou ainda à Sputnik que en­quanto es­tava com ou­tros de­pu­tados no ga­bi­nete de um mi­nistro, li­garam ao con­dutor de uma das am­bu­lân­cias que ten­tavam re­pe­ti­da­mente en­trar em Cizre. Este re­latou que es­tavam a ser im­pe­didos de o fazer pelo con­tin­gente ar­mado en­viado por An­cara. Os res­pon­sá­veis go­ver­na­men­tais nada fi­zeram, ale­gando a va­li­dade das jus­ti­fi­ca­ções avan­çadas pelos mi­li­tares, as­se­gura.


Caso sírio

As ini­ci­a­tivas vi­o­lentas no Su­deste da Tur­quia não podem ser des­li­gadas do con­flito na re­gião, em par­ti­cular na Síria e Iraque, no qual a Tur­quia é acu­sada de ser um agente de de­ses­ta­bi­li­zação ao ser­viço do im­pe­ri­a­lismo.

Ainda a se­mana pas­sada, An­cara voltou a res­pon­sa­bi­lizar a Rússia – que desde 30 de Se­tembro au­xilia, com bom­bar­de­a­mentos, o com­bate das forças ar­madas sí­rias aos grupos ter­ro­ristas, entre os quais o au­to­pro­cla­mado Es­tado Is­lâ­mico (EI) – por uma nova vi­o­lação do seu es­paço aéreo. Mos­covo qua­li­ficou a acu­sação de «pro­pa­ganda vazia», o que con­juga com o facto de a Tur­quia ter fa­lhado a apre­sen­tação de provas da sua versão de um in­ci­dente se­me­lhante em que der­rubou um caça russo, ocor­rido há cerca de dois meses.

A pro­pó­sito das ale­ga­ções turcas, a NATO veio a ter­reiro re­petir de forma agra­vada o apelo então feito. Para a Ali­ança Atlân­tica, a Rússia tem de «res­peitar ple­na­mente o es­paço aéreo da NATO».

Ou seja, se da pri­meira vez o apelo da NATO era para que o Kremlin res­pei­tasse a so­be­rania turca, desta feita falou-se em res­peitar o es­paço aéreo do bloco po­lí­tico-mi­litar que a Tur­quia in­tegra, o que in­dicia que a NATO pre­tende acossar a Rússia e a ofen­siva que tem tido franco su­cesso no des­ba­ra­ta­mento de po­si­ções dos mer­ce­ná­rios na Síria, es­pe­ci­al­mente do EI.

A es­tru­tura atlân­tica nada diz, no en­tanto, pe­rante as de­nún­cias do go­verno sírio quanto aos bom­bar­de­a­mentos turcos re­a­li­zados por estes dias en­quanto as tropas de Da­masco avan­çavam sobre os grupos ar­mados, por exemplo na pro­víncia de La­takia, junto à fron­teira sírio-turca. A NATO também se furta a con­denar a re­pressão de­sen­ca­deada contra as re­giões de mai­oria curda, su­fra­gando, por omissão, a vi­o­lência contra aquela co­mu­ni­dade.

As ope­ra­ções turcas contra os curdos, quer no seu ter­ri­tório, quer no Iraque e na Síria, visam es­magar forças que se têm no­ta­bi­li­zado no com­bate aos jiha­distas na Síria e Iraque e, por di­reito pró­prio, de­ve­riam ter as­sento nas con­ver­sa­ções de paz que de­correm em Ge­nebra, na Suíça.

O facto é que, por exi­gência da Tur­quia, os re­pre­sen­tantes dos curdos sí­rios foram afas­tados de um diá­logo re­pleto de in­cóg­nitas, ao qual a «opo­sição síria» aderiu em úl­tima ins­tância. A de­le­gação en­viada por Da­masco in­siste que qual­quer so­lução para a Síria tem de passar pelo povo sírio e pela re­jeição e com­bate ao ter­ro­rismo, no que são apoi­ados pela Rússia. A «opo­sição», com­posta por di­versas fac­ções e ten­dên­cias, pre­tende uma tran­sição «sem Assad», go­zando do apoio dos EUA e dos es­tados vas­salos que com os norte-ame­ri­canos tentam há anos der­rubar o pre­si­dente sírio.

As Na­ções Unidas ga­ran­tiram, en­tre­tanto, que está fora de causa qual­quer am­nistia ou acordo para a não in­ves­ti­gação dos crimes co­me­tidos du­rante a guerra.

 



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