Porquê a cera?!
Os comentadores afadigam-se com as «reversões» das privatizações implementadas pelo Governo do PS/Costa, volteando dois «prejuízos» derivados: o da «credibilidade externa» e o da «fuga de investimento estrangeiro».
Nunca lhes ocorre – o que não será por estupidez ou ignorância – que as «reversões» se referem a negócios feitos «em nome do Estado» com fraudulência de escada abaixo, particularmente grave por ter sido cometida por um governo demitido pela AR, sem autoridade para o fazer e ao arrepio da vontade expressa pela maioria dos partidos e dos portugueses contra tais privatizações.
É notável que tão prolixos comentadores, a quem nunca falta verve e viço no arrebanhar argumentativo, jamais tenham feito reparo na indecorosa vigarice que constituíram os actos privatizadores cometidos por um governo demitido.
Ainda nos lembramos do alarido que grassou (correctamente) quando o Expresso (e depois outros jornais), nos idos de 2005, denunciaram o então ministro do Turismo de Santana Lopes, Telmo Correia, do CDS/PP, por ter assinado cerca de 300 despachos na madrugada do dia 12 de Março – dia da tomada de posse do governo de José Sócrates. Entre essas centenas de despachos figuravam dois, de particular escandaleira – a «autorização» para o abate de milhares de sobreiros no concelho de Benavente (para a construção de um campo de golfe na órbita do BES – sempre este banco fatal) e rigorosamente protegidos pelas leis de conservação ambiental, que há décadas proibiam o abate); e a entrega à empresa de jogos Estoril Sol (ES) do edifício do Casino de Lisboa, que devia ser devolvido ao Estado no final do contrato com a ES.
Se estes escândalos envolvendo o ex-ministro Telmo Correia (e outras figuras gradas do CDS) deram (e bem) basto alarido na informação nacional, torna-se misterioso que não haja uma palavra para uma trampolinice da envergadura destas privatizações a mata-cavalos da TAP e dos transportes colectivos de Lisboa e Porto, feitas por um governo demitido e ao arrepio da vontade nacional expressa antecipada e copiosamente.
Outro ponto que ninguém aborda é a qualidade dos presuntivos «compradores» da TAP e dos transportes colectivos de Lisboa e Porto. Se fossem gente séria no implacável mundo dos negócios – onde a credibilidade é um bem tão decisivo como volátil –, jamais entrariam nesta negociata manhosa, rodeada de gritaria nacional contra ela e apresentada por um governo demitido e sem legitimidade.
Assim sendo, que importam os remoques duns embaixadores, a dar voz a estes manhosos negociantes lá das suas pátrias?
A falta de seriedade de toda a história é que poderá atingir a «nossa credibilidade externa» (como se afligia Lobo Xavier na Quadratura do Círculo) e, quiçá, pôr de sobreaviso «investidores externos».
Porquê a cera por tão mau defunto?!...