Acudam!
A semana mais longa do ano, que ditou o fim do Governo mais curto da história recente do País, foi frenética. Nunca tantos falaram tanto e tantas vezes do que desconheciam, dizendo uma coisa e o seu contrário, construindo e desfazendo cenários, argumentando com os mais esfarrapados argumentos, criticando porque sim e porque não, lançando mão aos fantasmas bafientos que afinal continuam a ter guardados no baú do mais ressabiado reaccionarismo e anticomunismo primário.
Os comunistas vão para o governo, que susto! Os comunistas não vão para o governo, que fraca solução! Não há acordo assinado, esquerda não dá garantias. Vai haver três acordos, não se entendem. Falam de mais. É tudo secreto. Passos fica em gestão. Passos vai para a oposição... Etc., etc., etc.
E quando se julgava que já (quase) tudo tinha sido dito, que não se podia ir mais baixo na demagogia e no achincalhamento das mais elementares regras da democracia, mesmo burguesa, que em Portugal assenta num regime parlamentar, que o mesmo é dizer que cabe aos deputados aprovar ou reprovar o programa do Governo, quando tal se julgava, repete-se, eis que na Assembleia da República os deputados do PSD e CDS mostraram ser possível descer ainda mais fundo.
Num debate que ficará para a história do País como um tão lamentável quanto esclarecedor exemplo de falta de cultura democrática da direita, ouviu-se de tudo. Desde o caos anunciado por Maria Luís Albuquerque, que agitou o papão de um novo «resgate» e anteviu um futuro negro para as gerações vindouras caso siga em frente a «experiência» de um governo apoiado por uma maioria de deputados que não os de direita, passando por Passos Coelho que não hesitou em classificar um tal governo como sendo uma «política de ruína de Portugal» com o qual nunca colaborará – «assumo a responsabilidade de não colaborar e de me opor a uma política negativa, de ruína de Portugal, em que os portugueses são vistos como meros instrumentos de jogadas políticas de poder», disse –, ouviu-se de tudo, com epítetos de «traidores» e sugestão de «vendidos» lançados aos deputados. Qual cereja em cima do bolo, Paulo Portas – o tal que trocou, para usar uma expressão suave, a sua famosa (e que tão cara custou ao País) decisão irrevogável pelo posto de vice-primeiro-ministro – classificou de «geringonça» o entendimento à esquerda, falou de «bebedeira de seis meses de medidas», acenou com o «problema da ressaca» e rematou com um dramático «não venha depois pedir socorro».
Passos Coelho e companhia ainda acharam tempo para vir às varandas do Parlamento acenar ao punhado de gente que foi a São Bento apoiar o governo a prazo, o mesmo que Passos afirmou ser o «governo do povo». A proporção condizia.
Passando ao lado da festa com que os trabalhadores e o povo celebraram, frente à Assembleia e no País, o derrube do Governo, conscientes de que foi a luta de massas a torná-lo possível, pela noite dentro continuou nos media o forrobodó dos arautos da desgraça.
Arregacem as calças que vem aí o dilúvio.