Ajuste de contas
Tropecei no programa da TVI 24, «Ajuste de Contas», onde um jornalista nos leva a conhecer alguns cantos da Bosch-Braga: 5 milhões de sensores produzidos por ano, 40 mil produtos por dia, produção de uma peça de 3 em 3 segundos, 800 milhões de euros de facturação por ano, com a perspectiva de crescer até 1000 milhões, exportações que valem 0,4% do PIB, fazendo desta uma das 5 maiores exportadoras nacionais.
Números que passam pelos 2000 colaboradores em Braga, 3800 em todo o país, para os quais estavam reservados os mais rasgados elogios.
Os nossos colaboradores são o melhor que esta empresa tem, afirmou o CEO (nova sigla para os administradores) da Bosch-Braga.
Mas estes são os mesmos trabalhadores que reclamam aumentos salariais dignos e que encontram pela frente a intransigência da empresa. Os mesmos cujos salários estão muito abaixo dos da casa mãe na Alemanha, ficando-se, para os novos trabalhadores, por valores pouco acima do Salário Mínimo Nacional. Os mesmos que são sujeitos a ritmos de trabalho tão intensivos e repetitivos e sob uma tal pressão, que a regra são as doenças profissionais e o stress, com um brutal desgaste físico e psicológico que a empresa não quer reconhecer. Os mesmos que a empresa descarta assim que pode, com centenas de trabalhadores a ocupar postos de trabalho permanentes, mas com contratos precários em empresas de trabalho temporário. Os mesmos a quem a Bosch impede de cumprir o seu papel na família, como aconteceu no caso de um casal que tinha que acordar a filha pequena às 4h da manhã, para a levar para casa de um familiar, para irem trabalhar às 6h, pois a empresa não queria dar um horário flexível a um deles.
Os mesmos a quem, pela conversa, o CEO quer pôr a trabalhar 12h. Eu passo 12 horas por dia na empresa, porque é importante dar o exemplo. Não se pode pedir aos outros o que nós próprios não faríamos. Talvez lhe ficasse bem apresentar-se numa das linhas de trabalho a produzir, ao ritmo que ele impõe aos outros, apenas as 8 horas, cinco dias por semana.
Talvez assim o CEO, que não aceitou reunião com os candidatos da CDU e impediu mesmo a entrada destes na empresa para falar com os representantes dos trabalhadores, percebesse a razão por que lutam os trabalhadores, ainda que isso não tenha lugar no «Ajuste de contas».