Hiroxima e o Japão imperialista

Albano Nunes

Os comunistas nunca desistem da luta nem claudicam

Há 70 anos o imperialismo norte-americano cometeu o maior crime de guerra que a História regista. O lançamento das bombas atómicas sobre Hiroxima e Nagasaki causando de imediato a morte de centenas de milhares de civis e deixando atrás de si um lastro de terríveis lesões e sofrimentos que ainda hoje perduram, é uma tragédia que jamais poderá ser esquecida, como esquecidos não podem ser os seus responsáveis. Foi um crime monstruoso que os EUA justificaram então e continuam a justificar hoje com o argumento de que assim obrigariam o Japão a render-se poupando um número incontável de vidas humanas. Trata-se de uma mentira sem nome. O Japão estava já praticamente derrotado. Terminada a II Guerra mundial na Europa o Exército Vermelho estava finalmente em condições, nos precisos termos do calendário acordado na Conferência de Ialta, de deslocar grande número de divisões para o teatro de guerra no Extremo Oriente e passar à ofensiva para esmagar o militarismo japonês.

Mas, por paradoxal que pareça, era isto precisamente o que os «aliados» imperialistas queriam evitar. Perante o imenso prestígio da URSS e o avanço das forças do progresso social, de libertação nacional e do socialismo – particularmente evidente na Ásia com as revoluções chinesa, vietnamita e coreana – os EUA passaram a afirmar sem escrúpulos a sua decisão de «conter o comunismo» por todos os meios, incluindo pela exibição do monopólio da arma atómica e a ameaça da sua utilização. Ainda a guerra não tinha acabado e já a principal potência imperialista desencadeava a «guerra-fria» no quadro da sua estratégia de confronto com o campo socialista e de domínio mundial. Foi a luta pelo progresso social e a paz e a conquista pela URSS da paridade militar estratégica que impediram o imperialismo de desencadear uma nova guerra de catastróficas dimensões.

Os sofrimentos do povo japonês com a guerra – além da tragédia de Hiroxima e Nagasaki, Tóquio e mais de duzentas cidades foram bombardeadas – levaram ao desenvolvimento no Japão de um poderoso movimento pela abolição da arma nuclear e à consagração na Constituição japonesa da renúncia ao militarismo e à guerra e a interdição do rearmamento do país. É por isso inquietante que, 70 anos depois do fim da 2.ª guerra mundial o imperialismo japonês, em aliança com os EUA, volte a proclamar perigosas ambições expansionistas e o governo reaccionário de Shinzo Abe, que aliás recusa reconhecer os terríveis crimes de guerra praticados (nomeadamente na China), leve ao Parlamento japonês um novo projecto de «lei de segurança», anticonstitucional, que permite usar a força militar contra outros povos.

Hoje os tambores da guerra, e com ela o perigo de hecatombe nuclear, voltam de novo a rufar. Com o fim da URSS desapareceu a força poderosa que obrigava o imperialismo a encolher as garras. A luta pelo desarmamento e pela paz tornou-se mais difícil. Mas nem por isso a guerra deve considerar-se inevitável. É certo que imperialismo e guerra andam de mãos dadas e que enquanto o sistema capitalista não for erradicado da face da terra os perigos de guerra subsistirão. Mas a história são as massas populares e a sua luta organizada que a escrevem e os comunistas nunca desistem da luta nem claudicam perante as dificuldades.

A força material das ideias é imensa. Não por acaso é em torno da verdade histórica que a luta ideológica é particularmente aguda. Não esquecer a tragédia de Hiroxima e Nagasaki, as circunstâncias históricas que a rodeou e os seus responsáveis, é dar mais força à luta pelo desarmamento, pela abolição da arma nuclear, pela paz.




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