Escapar à ruína
Após quatro dias de protestos que se estenderam a todo o país, os produtores de leite e de gado franceses obtiveram alguns apoios do governo para minimizar prejuízos.
Indústria e distribuição exploram produtores
Confrontados com a redução dos preços, milhares de agricultores franceses bloquearam estradas e auto-estradas em vários pontos do país, durante a semana passada, exigindo a intervenção do governo num mercado dominado pela indústria e grande distribuição.
A pecuária emprega directa e indirectamente cerca de 900 mil pessoas em França. Todavia, dados do Ministério da Agricultura, citados pela AFP, revelam que perto de 25 mil explorações, num universo de mais de 200 mil, estão à beira da ruína.
As dívidas à banca e aos fornecedores de rações asfixiam muitos produtores, cujos rendimentos são sugados pelas grandes margens exigidas pela indústria e distribuição.
No caso da carne de porco, os produtores apenas recebem 32 por cento do preço final. A indústria fica com 24 por cento e a distribuição com 38 por cento.
Em Junho, representantes das partes envolvidas (produtores, indústria e distribuição) acordaram um aumento progressivo dos preços ao produtor. Porém, passado um mês, o acordo continua por cumprir.
Embargo pernicioso
As dificuldades dos pequenos e médios agricultores em França acentuaram-se com a aplicação das sanções comerciais impostas pela União Europeia à Rússia.
Com a perda deste importante mercado de escoamento, em particular para o leite e carne, os preços caíram pressionados pelo aumento da oferta.
A concorrência da Alemanha e da Espanha agravaram a situação dos produtores franceses de carne suína. E o fim das quotas leiteiras, em Abril passado, foi aproveitado pela grande distribuição para aumentar as importações.
Face à revolta da agricultura, o governo francês apresentou uma série de medidas que consistem fundamentalmente na redução de impostos e da reestruturação da dívida para os produtores em pior situação. Ao todo, o plano de emergência, anunciado dia 22, representa 600 milhões de euros.
Agricultores e sindicatos aceitaram-no e suspenderam os protestos, levantando as barragens. Mas a acalmia foi passageira. Os protestos reacenderam-se no início da semana com o bloqueio nas fronteiras com a Alemanha e a Espanha, invasões de grandes superfícies e o corte da auto-estrada Paris-Rennes. Novas acções foram anunciadas para os dias seguintes.