Manipulações

Jorge Cordeiro

Muito se poderia aduzir quanto ao papel das sondagens, à sua fiabilidade ou desconformidade com a realidade, à função mais ou menos objectiva que preencheriam ou à sua recorrente utilização para fins políticos menos transparentes. Ao que se poderia acrescentar, com inegável fundamento, um conjunto de observações sobre critérios e premissas em que se sustentam. De facto, a verificação em concreto da expressão do peso na amostra com que cada um entra no estudo de opinião, os efeitos de se pôr a falar quem se recusou a fazê-lo, ou da extrapolação de conclusões a partir de projecções mais ou menos aleatórias, não podem suscitar outra atitude que não a da velha, mas testada, prudência. Dir-se-á em sua defesa que estas e outras observações são necessidades e vulnerabilidades comuns a estudos de opinião, riscos que se corre, ossos do oficio.

Tudo, pois, coisas mais ou menos explicáveis neste campo de pesquisas de opinião. O que já não será seguramente compreensível é toda uma concebida estratégia para substituir aquilo que deviam ser instrumentos de avaliação e aferição de posicionamentos, predisposições e opinião em activos instrumentos de manipulação e indução política. A afirmação proferida por um responsável de uma empresa do ramo a propósito de uma recente sondagem de que «se as sondagens apontarem para empate técnico, isso é mobilizador para o voto» fala por si só. Ficamos pois a saber que os recorrentes «empates técnicos» tão caros à estratégia de bipolarização são, não uma aferição de realidade, mas sim uma fabricação para responder a uma necessidade. Aquilo que deveria ser um meio de apuramento de opinião passa a ser um exercício de indução de votos nos pratos da política de direita, um exercício de manipulação destinado a favorecer os centros políticos que comandam as empresas de sondagem e lhes encomendam serviço. Para os que se preparam já para disparar impropérios sobre o que designariam de uma visão maniqueísta e pouco científica, aqui se regista a resposta de um responsável de conhecida empresa de sondagem quando confrontado com o facto dos resultados serem substancialmente diferentes do que as sondagens apontam: «se todas as empresas têm desvios e apontam cenário idêntico, então é porque estão bem». Não há realidade que lhes resista.




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