Empate técnico

Filipe Diniz

Não, este texto não é sobre a actual fase da estratégia das sondagens. Só aproveita a boleia.

Os documentos eleitorais até agora publicados pelo PS («Programa eleitoral») e PSD («Linhas de orientação geral para a elaboração do programa eleitoral») permitem constatar que continua a verificar-se um empate técnico entre os dois partidos que, com o CDS alternadamente atrelado, são os responsáveis pela política de direita no nosso País. Empate técnico na demagogia; na tentativa mútua de atribuir responsabilidades; na memória curta, que ambos esperam que os portugueses também tenham.

São textos de passa-culpas em alguns casos verdadeiramente surreais. O PS acusa o governo PSD/CDS de ter ido «muito além» do que era a agressão contra os trabalhadores e o povo contida no memorando da troika (que os três subscreveram). O PSD diz (p. 23) que «cumpriu sem falhas os compromissos que outros tinham assumido, o que condicionou largamente os rumos da governação, e não permitiu que concretizasse as suas ideias e projectos», ou seja, que PSD e CDS governaram segundo «as ideias e projectos» do PS o que, em geral, nem será completamente mentira.

Do mesmo modo que não diferem na desfaçatez. É de um lado o PS defendendo que não se esbanjem dinheiros públicos na «sistemática utilização de consultorias externas», é do outro o PSD defendendo um Estado de Direito «exclusivamente orientado pela defesa do interesse público», que «não transija com a corrupção e o compadrio». É o PSD defendendo «soluções que incrementem a participação cívica e a proximidade entre eleitores e eleitos», e é o PS defendendo «círculos uninominais, personalização dos mandatos e da responsabilização dos eleitos» «sem qualquer prejuízo do pluralismo».

Mais uma vez avança a engrenagem da falsa disputa entre PS e PSD/CDS. Mas se há coisa que o povo português deve comparar não é o que cada um deles agora promete. É o que cada um promete e o que fez quando esteve no governo, na longa e insuportável trajectória de quase quatro décadas de política de direita.

Não faltarão sondagens até às eleições. Até ao momento a única que é indesmentível é a da Marcha de 6 de Junho. É a única que sondou verdadeiramente a força do povo.




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